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terça-feira, 26 de julho de 2011

Carta a um Linfoma - Folhetim em forma epistolar (1º episódio)

Caro Hodgkin


Começo a presente carta por te agradecer o teres passado a fazer parte da minha vida. Certamente não recebes frequentemente tal agradecimento por parte daqueles a quem entraste de rompante pela porta e pela vida dentro; mas isso pouco importa agora. O que importa é que fazes agora parte de mim e me deste a possibilidade de te contar entre os meus mais íntimos, senão o mais íntimo daqueles que na minha esfera gravitam.

Seguramente perguntarás por que o faço, e não deixas de ter uma certa razão, meu caro Hodgkin, mas a verdade é que sentimentos há que são únicos e irrepetíveis e tu foste capaz de me fazer ir além, de atingir um estado de alma que até hoje nunca tinha experimentado. E olha que sou um que se pode gabar de ter vivido uma vida assaz turbulenta de inúmeras experiências feita, como de resto já sabes, lendo-me nas entranhas.
Uma coisa tenho de reconhecer, sabes entrar em cena. Durante quase dois anos te insinuas-te, escondendo-te, tentando passar despercebido como o transeunte com que me cruzo quotidianamente na rua sem que lhe repare nas feições. De tempos a tempos ias lançando uma ténue pista disfarçada por alguns dias de febre, que logo eram justificadas com a deficiente manutenção dos ares condicionados no local de trabalho. E lá surgiu um magnânimo diagnóstico de tuberculose ganglionar que te deixo espaço e tempo livres para fruíres da tua clandestinidade. E assim se passaram quase dois anos. Suspense mantido com rigor de mestre, meu caro Hodgkin! O que é um facto é que quando me preparava para ir receber a tuberculose à porta da frente, me apareceste tu, meu caro Hodgkin. Só não te disse que entrasses porque tu és um tipo que não faz cerimónia e já tinhas entrado...

(continua)

terça-feira, 19 de julho de 2011

A mercearia do Sr. Ângelo Custódio



Saiu da Igreja com um passo inseguro e o reflexo dos mistérios gozosos espelhado no olhar. A mantilha preta sobre os ombros e o véu de renda sobre a cabeça davam-lhe um ar de rata de sacristia que só encontrava rival nas botinas da queirosiana Juliana. Atravessou o sagrado passando por entre as tílias e os plátanos do adro, ladeou o cemitério onde a forma verticalmente longilínea dos ciprestes indicava vagamente uma via ascensional futura. Benzeu-se, juntamente com as suas companheiras de ladainhas, novenas e má-língua, ao passar diante das alminhas postas na encruzilhada onde, há já mais de dez anos, um marido adúltero tinha sido morto pelo seu congénere enganado. — “Aquilo é que é uma badalhoca!” — exclamou a D. Mimi referindo-se à causadora de tão grande falatório. —“As mulheres são a encarnação do Diabo!” — sentenciou a D. Ester recordando-se vagamente do sermão que o Senhor Abade tinha acabado de propinar sobre uma figura obscura chamada Eva. — “Lá isso são! Mas o coitado do Manuel lá foi prestar contas a Deus só por ser um bocadinho maluco por mulheres. Não é assim minha senhora?” — perguntou a criada Etelvina volvendo beatificamente os olhos ao empíreo. — “Temos que prometer cinco rosários, uma ida a Fátima e uma resma de ladainhas a Nossa Senhora....” — “Abençoado seja o Vosso nome!” — interromperam em coro esganiçado e devotamente polifónico as restantes beatas. — “... para evitar o fim do mundo!” — concluiu a D. Fernanda cruzando beatificamente as mãos sobre o peito. E lá foram andando, fazendo trup, trup como o burro d’O Malhadinhas, até à vista do cruzeiro onde, entre persignações e um último comentário sobre a sem-vergonha da filha do Zé Maria do Prado que tinha tido o descaramento de ir à Santa Missa com uma saia dois milímetros e meio por cima do joelho, se despediram.
D. Fernanda, curvada pelas mortificações impostas pelos exercícios espirituais lá seguiu, com o seu passo miudinho e histericamente nervoso, na direcção da mercearia do Sr. Ângelo Custódio onde se encontravam iguarias capazes de elevar um pobre mortal que não seja figura de proa ao Paraíso. Avistou finalmente a augusta porta onde os bacalhaus pendurados lateralmente lhe lembraram as asas protectoras de um Anjo disposto a acolhê-la no seu regaço. Ladeou os sacos de feijão e grão-de-bico, e, tecendo profundas considerações teologais sobre a tripa seca que se encontrava empilhada ao lado das leguminosas, entrou pigarreando para anunciar a sua presença. O Sr. Ângelo Custódio interrompeu por um momento a ínclita tarefa de afiar o lápis de duas cores com a longa unha negra do polegar para, ostentando um sorriso e uma afabilidade celestiais, a saudar: — “Bom dia D. Fernanda! Já viu o bonito dia que Deus nos deu?” — “Seja feita a Sua vontade per omnia sæcula sæculorum!” — “Ámen!”: apressou-se a responder o Sr. Ângelo Custódio elevando as mãos de modo a formar uma coroa em torno do cartaz onde se encontrava escrito um “Por culpa de alguém, não se fia a ninguém!” destinado a demover alguns caloteiros de pecar por avareza. — “Então D. Fernanda, em que é que a posso ajudar?”: perguntou o Sr. Ângelo Custódio esfregando as sapudas mãos. — “Ai Sr. Ângelo, eu nem sei. Talvez um meio-litro dessas ervilhas que são tão redondinhas que até parecem as contas de um rosário...” — “...e só de vê-las faz bem à alma!”: apressou-se a concluir o merceeiro que já conhecia a antífona. — “Tenho aí um chouriço capaz de salvar um pecador.”: insinuou o vendedor. — “Nem pense nisso que estamos na Quaresma!”: exclamou horrorizada a D. Fernanda com um tremor na voz. — “Talvez um bacalhauzinho?” — “Ai Sr. Ângelo, tenha vergonha e não me proponha coisas que cheiram a luxúria e a devassidão!”: recusou D. Fernanda possuída por um sentimento de temor divino. — “O atum é em óleo ou em azeite?” — “Em azeite D. Fernanda.”: apressou-se a esclarecer o merceeiro. — “Então está bem porque me faz lembrar o Monte das Oliveiras. Arranje-me duzentos gramas, se faz favor.” — “Tenho aí uns figos nacionais que são uma bênção para as hemorróidas!” — “Eu até nem costumo comer figos porque a figueira é a árvore em que Judas se enforcou, mas se o Sr. Ângelo me garante que são nacionais... Arranje-me aí um quarto de quilo por favor.” E o merceeiro lá ia aviando quando a D. Fernanda, abrindo o porta-moedas em que guardava o terço, os trocos e a coroa, reparou que não tinha trazido dinheiro. — “Ai Sr. Ângelo, que vergonha, esqueci-me do dinheiro em casa. E agora?” — “Não se preocupe que eu assento e quando puder passa para pagar.” —: disse, com um sorriso o merceeiro. E, sem se esquecer de agradecer, a D. Fernanda lá foi para casa enquanto o Sr. Ângelo Custódio, que não tinha computador nem rol das almas, lá ficou a escrever no seu “deve e haver”.


Ricardo Castelo Branco

24 horas na vida de duas beatas


Acordou, pigarreou, estendeu o braço roliço e enfiou a mão sapuda por debaixo da cama de onde retirou um pífio penico rosa onde escarrou abundantemente. Depois, benzendo-se, desfiou as orações da manhã dando graças a Deus por este lhe ter permitido assistir a mais um nascer do Sol sem que o bicho papão tivesse atentado à sua tão preciosa virgindade e dirigiu-se à casa de banho, onde mãos experientes mergulharam na água tépida do bidé e vigorosamente esfregaram os íntimos recessos procurando lavar o pecado na origem numa espécie de extase que tocava ao frenesim. Enfiou a custo os vestidos procurando cobrir a flacidez pecaminosa das carnes abundantemente descaídas e dirigiu-se à cozinha onde, enquanto esperava que a cevada estivesse pronta ― preferia a cevada ao café por causa das flatulências, do colesterol e da tensão ―, devorou três pães recheados com grossas fatias de manteiga, queijo e marmelada. Entrou no quarto da Patroa onde escancarou, com delicada subtileza paquidérmica, as portadas da janela.
― Bom dia minha Senhora. Dormiu bem?
― Graças a Deus, Geraldina, graças a Deus!
― E a todos os santinhos! ―rematou com a beatitude de um olhar revirado para o empíreo e a prontidão de uma rotina que descontextualizava as expressões e as fazia cair numa pouco cristã vacuidade. Retirou-se para ir buscar um pequeno tabuleiro chinês de loja dos trezentos onde um pachorrento dragão assustadoramente sorria virando e revirando os olhos sobre o fundo negro da imitação barata de laca. Sentada e parcialmente afundada na cova que a sua imponente mole tinha traçado na cama, a Patroa começou por dar graças a Deus por mais esta benção da terra, após o que devorou as torradas e os biscoitos bebendo, com pequenos sorvos, a malga imensa de cevada e leite magro ― para não engordar ― condimentada com três colheres de açucar.
― Hoje sonhei com Nossa Senhora! ― declarou, com a boca cheia, a Patroa enquanto dava uma dentada num biscoito.
―É sinal de que já tem um lugar no Céu! É o que eu digo, a minha Senhora é uma Santa! ― concluía sarnosamente a criada enquanto, com um pulinho, se sentava na cama ficando com os cotos papudinhos a que chamava pernas pendurados no ar.
O relógio da torre bateu pausadamente as nove horas pelo que tão luminoso quadro foi interrompido para dar lugar ao quotidiano ritual dos preparativos para a missa. Cuidadosamente reuniram os terços e as coroas, as mantilhas e os missais e, vestidas de azul como o vestido da Nossa Senhora que a Patroa tinha beatificamente visto em sonhos, lá atravessaram o adro onde arcanas tílias rescendiam e entraram pela porta lateral na velha igreja de Pinheiro. Faltavam ainda três quartos de hora para a função pelo que esta se encontrava vazia. O ranger da porta e a entrada das duas criaturas veio perturbar a monástica modorra dos morcegos que, libertando-se das traves que sustentam o coro, começam a esvoaçar em largas quão imprevisíveis evoluções. Entraram, persignaram-se, ajoelharam-se e começaram a desfiar um longo rosário de novenas, jaculatórias e ladaínhas enquanto, a pouco e pouco, uma série de figuras negras, vergadas sob o peso dos véus de breu e de uma obscura Fé feita de temores e superstição, iam entrando no templo e, tementes e trementes, teciam trémulas e soluçantes orações. Os morcegos, revendo-se no negro dos véus, recolhiam piedosamente às traves do coro onde, com excepção de algum irrequieto esticar de asas, permaneciam imóveis. Entretanto, defronte da agonia eclesiástica da Virgem, as duas lá iam desfiando sucessivas Avé-Marias.
― Avé Maria, olha-me para aquela saia, cheia de graça, parece que aquela sem vergonha da Gata já se esqueceu dos desmanchos da filha, o Senhor esteja convosco, toda a noite com o paspalho, ... ― ao que a Geraldina, em êxtase místico, respondia: ― Santa Maria, é uma badalhoca, Mãe de Deus, mas porque é que esta gente vem à missa, rogai por nós, pecadores, que calhordas, agora e na hora da nossa morte. Amén.
O ronco abafado e soluçante do carro do padre veio interromper este quadro que, não sendo pio, tinha a católica virtude de inspirar piedade. Paramentado, as longas vestes caindo-lhe curvilineamente ao longo da protuberância abdominal, lá subiu, arquejando, com os braços contrictamente cruzados e o olhar recolhido de lobo manhoso disfarçado de pastor, ao altar seguido pelo sacristão com andar bamboleante de ave palmípede e a convicção íntima de estar a ganhar uma assinatura vitalícia para a primeira fila da celeste plateia. Começava a função: ― Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
E as morcegas persignaram-se enquanto, com beatífico ar, exclamavam revirando rotineiramente o olhar para as traves onde os seus congéneres repousavam: ― Amén!
E a missa lá foi prosseguindo, por entre cochichos e comentários sussurrados sobre a glória eterna e as vigarices dos vizinhos, numa modorrenta ladaínha em que o bandido do Serafim, que tinha mudado os marcos nas extremas dos pinhais, convivia alegremente com o bom ladrão e a mulher perdida da Cidália recebia lições das Virgens Loucas e dava lições de coquetterie a Susana. Chegou por fim a consagração e eis que, coreografadas como uma claque de football a fazer a hola, uma vaga preta, com exclusão desses bandidos desses hereges dos lisboetas que não têm resperito a Deus, se abate de joelhos, com o olhar onde cabia o peso dos pecados do mundo, sobre os apoios puídos dos bancos da frente. O padre dá lentamente a comunhão à longa procissão de breu, volta a guardar os santos utensílios no sacrário e, após um momento de recolhimento, dá início aos avisos:
― Amanhã a missa na Ermida vai ser às onze, o maternário dos porcos vai estar no sábado de manhã à porta da loja do Corrécio para vacinar os cães, a missa vespertina vai ser às seis em vez das sete por via da mudança da hora!
Lentamente, com as almas limpas e o paraíso espelhado no olhar, as beatas saem da igreja desfilando recolhidas sob a longa nave de caixotão onde miríades de santos se mortificam olhando para os decotes e verificando quotidianamente no espectáculo dos seios pendulares a veracidade das teorias de Newton.
No adro, por baixo das tílias, rogam-se os trabalhadores aos dias e meios-dias, a seco e a comer. Enquanto a Patroa debita as últimas orações, Geraldina, promovida a Patroa, vai apalavrando homens num cirandar constante. Depois, é vê-las subir a longa e velha calçada que as leva a casa felizes pela contrição das almas e saciadas por tão pia função.
O portão rangeu com um estrídulo esganiçado lento a que logo se sobrepôs o surdo ladrar de uma grande cadela serra da Estrela que reinava no recinto da casa. Branca, de cantaria nas janelas, a casa erguia-se centenária, ensombrada pelos espíritos e pela herança de gerações inteiras que se entranharam nos caixotões de madeira do salão como nas talhas dos altares da capela ou nas paredes de espesso granito beirão. O espírito de um passado ilustre e a herança de várias gerações a lutarem contra a decadência do Liberalismo, da República, do Estado Novo habitavam o local. Aos ilustres sobrevieram os proscritos, depois os humilhados e finalmente os resignados. Mas a resignação pode ser industriosa e fecunda por, aceitando uma situação, se tirar dela o melhor partido; como pode deslizar para a bovinidade pachorrenta de fêmea embronquecida a quem se passa a mão pelo pêlo e de quem tudo se obtém. Tal era a Patroa, velha solteirona frustrada a quem a pia superstição de ser católica levava a achar não valer a pena interrogar-se ou ler a Bíblia porque só um tal pensamento era já uma heresia, o pôr em causa algo de inquestionável: a Fé. E a Fé, essa era um amontoar atabalhoado de interpretações literais das passagens que o sr. prior lia na missa, de histórias ouvidas na infância e que se simplificaram com a estupidificação e o anquilosamento mental da mulher a quem a Geraldina nunca se esquecia de se dirigir como Minha Senhora.
―E minha Senhora viu aqueles bandidos dos comunistas a comungarem? Aquilo era com um bregueiro naqueles costados!
― Vi sim, Geraldina, vi sim, mas deixa que o Senhor escreve direito por linhas tortas e ninguém pode ser bom católico se for comunista! Até vem na Bíblia que no Juízo Final os malditos vão para a esquerda do Senhor e os bem-aventurados para a direita!
E lá vão entrando, com a Geraldina aos saltos diante da cadela aos guinchos: ― Sape! Vai-te embora! Ai o diabo da cadela que eu pego num bregueiro!, enquanto a Patroa, a sacolejar a flacidez mental e física, se apresta a abrir a porta, não fosse a cadela sujar as roupagens de piedade para as devoções públicas de Fé nas quais, com o passar do tempo se foram sucessivamente acumulando várias décadas de vocação para ave do paraíso até serem interrompidas, no final dos anos setenta, com a consciência de que ia ficar solteirona. Sabiamente industriada pelo isolamento e pela sarnosice da criada manhosa e paciente, a Patroa cria-se uma pia figura, depois a beata bem aventurada e finalmente passara ao glorioso estado de santa e mártir em vida. O seu carácter inatamente bovino foi, ele também, um importante adjuvante nesse lento processo ao qual não era igualmente estranho o tratar-se de filha mais nova e extemporânea e que sempre fora mimada e desculpabilizada.
― Aquilo é que é um bandido, deixar a minha Senhora por aquela farrusca só pelas carreiras do pai dela. Um sem vergonha. Um comunista de um bandido que, quando morrer, vai logo para o Inferno direitinho como um fuso. Mas olhe, minha Senhora, assim até fica melhor. Fica Virgem como Nossa Senhora.
― Os homens são todos uns bandidos. Não te cases, minha filha, não te cases!
― Não, minha Senhora! Nem pensar nisso é bom! ― : dizia a Geraldina a quem uma velha herdada sem herdeiros directos alegrava os horizontes.
Enquanto a criada preparava um almoço de enfarta-brutos em quantidades industriais no velho fogão a lenha, a Patroa embrutecia em frente de uma televisão que debitava programas imbecis. Sorvia-os a todos com a avidez com que engolia os nacos de carne a que chamavam bifes, a sopa grossa de batatas e couves com unto, os molhos de tasca por cima dos bifes como por cima do puré de batata que formava estranhas ilhas misteriosamente hirtas no meio de um mar de cor indefinidamente parda entre o castanho e o laranja.
― Então, minha Senhora, está a gostar? ― perguntava a Geraldina com sorriso matreiro onde os troncos negros decapitados que lhe cobriam as bochechas fartas e a larga papada balofa, fruto de décadas de dietas omnívoras, faziam lembrar esses casos de hirsutismo que se exibiam dantes nas feiras como o incrível, o único, o verdadeiramente assombroso caso da mulher barbuda. Sem a nobreza da personagem du maître des maîtres da juventude do narrador ― sim, porque a história do autor é bem outra ―, Geraldina fazia da deformação física (inata, provocada por gula e sofreguidão insaciáveis, mas não induzida) uma questão pessoal e ostentava-a com o mesmo orgulho chocarreiro e ostensivo com que certos membros da comunidade gay recusam uma igualdade de direitos e deveres, devida a todos os níveis, para se ghettizarem como diferentes e marcarem essa diferença como um marco intransponível. Era uma espécie de Desleixadamente Obesos Pride Parade vê-la descer, com pequenos saltos de trancas curtas, em formato de pirâmide de papos invertida se quisermos usar uma bela imagem poética ou de cotos de porco se formos mais realisticamente prosaicos, as escaleiras de pedra saída dos socalcos da quinta. Cada saltinho era acompanhado de um movimento ondulatório de banhas crescentes que, se fosse filmado, poderia servir para explicar às criancinhas o fenómeno do tsunami, desde o epicentro, passando pelo rápido desenvolvimento até ao último e destrutivo estertor, lá onde o mar acaba e a terra começa, o que, para o leitor mais atento, será por altura das bochechas violentamente estremecidas da sapudinha Geraldina.
― Estou, Geraldina, está muito bom, mas eu não posso comer muito ou fico gorda! ― dizia a Patroa enfiando na boca mais uma garfada do lacrimejante e untuoso puré de batata.
― Minha Senhora, isto são só produtos nossos, são as nossas batatinhas, o nosso azeitinho, o porquinho, as cenourinhas, as cebolinhas, é tudo nosso! Não pode fazer mal nem engordar! Sim, porque esta é uma casa farta. Aqui ninguém passa fome porque a Geraldina faz tudo e trata de tudo! Não é minha Senhora?
― É sim, Geraldina, é sim, tu é que me vales. Se não fosses tu não sei como seria. Tu é que me vales.
― E a Senhora está muito bem. Está muito rija, muito coradinha, faz ver às novas! Olhe, eu é que estou muito mal, muito agoniada, com muitas dores! É do fígado! ― dizia com voz dolente e plangente, carregando com ar sofredoramente violento sobre o estómago enquanto repetia pela terceira vez até encher o prato de três grossos tracanhazes de boa carne de porco e de um outro vago e obscuro arquipélago de puré (e esta é só para ver se os leitores que conseguiram chegar até aqui o fizeram apenas pela força da inércia ou se estão atentos ao que para trás se escreveu e certamente identificaram no arquipélago anterior a realística imagem com que classifiquei a culinária segundo Geraldina, cujo receituário, embora aspirasse ao de une grande tocque, nunca fora além do grau de um grande barrete).
E assim, numa troca de galanteios e mimos constante, onde se cruzavam reflexões pias e perguntas da Geraldina sobre o conteúdo dos programas da manhã, narrações simplificadamente deturpadas pelo carácter esclerosado da Patroa e anuimentos com as conclusões lisérgicas a que a Minha Senhora chegara, se passava o almoço.
A loiça do almoço repousava na pia de pedra branca enquanto ambas, diante de um televisor sem som, jiboiavam deitadas na cama que o muito peso abaulara e rezavam ululantes o terço e as orações da tarde. Depois, a Patroa adormecia encostada ao espaldar da cama enquanto Geraldina continuava a ver com ar amodorrado e sonolento as imagens afónicas da televisão. E chegava ao entardecer com a Geraldina a ir dar de comer às galinhas e a Patroa a acordar para devotamente acompanhar o terço na onda média da emissora da multinacional vaticana, inchada de decibéis e coros rotineiramente gravados, como rotineiro e mecânico era para a Patroa o lento desfiar das contas.
Jantavam cedo para não ir para a cama muito cheias. Durante o jantar, após várias laudatórias sínteses dos assuntos que as tinham mantido intelectualmente ocupadas durante o dia, glosava-se, até à exaustão, o tema: ― Ai a minha Senhora é muito fina! Faz ver às novas!
E lá se escoava o pratinho de gorduroso caldo e a malguinha de leite com cevada e biscoitos, seguida da costumeira ajuda com que a Geraldina quotidianamente propinava a Patroa e que consistia no dar-lhe um puxão para que, ao levantar, ela conseguisse libertar os fartos e anafados quadris da prisão dos encostos para braços da cadeira. Enquanto Geraldina lava a loiça, a Patroa debita monocórdica e maquinalmente o terçinho da noite.
A noite cai, solene e fria sobre as serranias, com a limpidez transparente de um céu estrelado, manchas mais escuras denunciam na paisagem a presença de uma serra, de um monte, de um precipício como, aqui e além, perdidos no escuro, pontos luminosos, isolados ou aos magotes, acusam a presença de um casal como de uma aldeia. Ao fundo, o ruído espumoso e rumorejante do rio marca o regular compasso onde apenas o cair de uma pinha, o piar da coruja ou o raspar da cortiça de duas árvores introduzem uma nota dissonante. Na casa, um silêncio frio e bafiento plana pelos corredores e salas privos de vida, ecoa nas paredes e nas cómodas altas, no escuro, nos lustres, nas teias de aranha. Uma porta chia e um vulto sonâmbulo atravessa o corredor. O sono agita-se em delíquios agitados de bacantes.
O galo canta. Uma primeira luz avermelha o alto da serra. A vida continua com a sintético rumor de um escarro que cai dentro de um pífio penico rosa.

Rua da Boavista em Lisboa, 2006-12- 12

Ricardo Castelo Branco

Blind Date - Encontro às cegas


À minha Avó que me ensinou a escrever
tendo por única pedagogia o bom-senso


O espelho à sua frente reflectia a imagem de um homem satisfeito com a própria existência. Há algo de intimamente reconfortante numa cadeira de barbeiro. Não sei se se trata da sensação de omnipotência de poder rodar trezentos e sessenta graus ou da ergonomia da cadeira, mas, o que não oferece sombra de dúvida é que uma ida ao barbeiro traz serenidade à alma. Assim se sentia Hélio, vendo-se, sorridente e orgulhoso de si mesmo, entre os frascos de champô, as caixinhas de talco, as toalhas assepticamente dobradas e as ampolas suiças contra a queda de cabelo. Viu um véu branco passar à frente dos olhos enquanto uma fita era atada atrás do pescoço e bocadinhos de algodão se insinuavam nas frestas da camisa. Uma voz melíflua perguntou-lhe: «Que corte prefere?». Não respondeu. Outras ideias lhe acudiam ao espírito. Lembrava-se ainda da primeira vez em que, titubeante, tinha entrado numa agência matrimonial. Não que fosse um homem feio ou possuísse algum defeito genético, mas a sua timidez era proverbial e, quando uma mulher o interpelava, os suores frios, os arrepios, a pele de galinha e a gaguez tinham-se tornado num hábito. A voz fez-se sentir de novo: «Que corte prefere?». Respondeu vagamente e fechou os olhos enquanto as tesouras começavam o seu vaivém. À medida que as madeixas caiam lentamente no chão ele pensava de novo naquela ida ao alfaiate para fazer um fato. «Um homem de fato dá segurança às mulheres!», tinham-lhe dito na agência. Uma vez escolhidos a cor e o tecido, lembrava-se que o alfaiate, com um sorriso indecifrável, lhe tinha perguntado: «Que corte prefere?». Tinha preferido um corte prático que não fosse atrapalhar os seus movimentos já de sí ligeiramente desengonçados. As tesouras continuavam o seu trabalho enquanto ele sonhava com o desenvolvimento da jornada tão esperada. Tinha-se levantado, tinha ido ao talho comprar a carne para o assado do jantar, tinha voltado a casa com as compras e ido ao barbeiro. Veio-lhe à memória que o talhante lhe causara uma estranha impressão. Era-lhe difícil, a ele que era naturalmente tímido, ver um homem tão forte e com uma voz tão firme e segura de si. Recordava-se, com especial intensidade, do tom grave da voz quando lhe tinha perguntado. «Que corte prefere?». O barbeiro acabou o seu trabalho e Hélio saiu satisfeito com o seu aspecto.
Quando chegou a hora, dirigiu-se ao bar onde tinham combinado encontrar-se. Apresentaram-se com algum embaraço e fumaram para ajudar a derreter a timidez e o gelo que boiava dentro dos copos. Agradavam-lhe sobretudo os longos caracóis negros que, caindo lateralmente lhe cortavam a linha de ombros branca. Foram para casa. Uma vez sentados, Hélio perguntou-lhe se tomava algo. Ela anuio e escolheu uma bebida doce. Conversaram tranquilamente durante cerca de meia-hora. Ela perguntou se podia ir a casa de banho e Hélio aproveitou para abrir a garrafa de Bordeaux que tinha comprado na véspera. Voltou para a sala e esperou. Quando ela voltou Hélio encheu novamente os copos. Sentia a cabeça andar-lhe à roda. Não sabia se devia culpar o ambiente ou o álcool. Fumou outro cigarro para vencer o mal estar. A mão, no bolso, tocou o frio do aço da cigarreira. Aproveitou para servir o Bordeaux e voltou-lhe à memória a ida à enoteca. Não sendo um connaisseur pediu conselho ao empregado que, dando-se ares de sommelier, declarara em tom pretencioso: «Com um assado quer-se um bom vinho tinto! Um vinho encorpado e que aqueça! Como o sangue!». Levantou-se com um arrepio imprevisto e disse que ia à cozinha. Ela sorriu e aproveitou para lhe admirar os ombros. Hélio voltou à sala com a navalha subtraída no barbeiro e, com uma voz segura como a do talhante, perguntou-lhe: «Que corte prefere?».

Ricardo Castelo Branco

A Escola

O despertador tocou encontrando-o já desperto como nos últimos trinta anos. Eram tantos os anos que acordava à mesma hora que lhes tinha perdido a conta; no entanto, o despertador permanecia como um referente inútil na sacralidade ritual dos gestos do seu quotidiano. Um dia-a-dia feito de levantar-se depois de uma aurora sem sono, agarrar nos mesmos apontamentos, ir para a escola, debitar com voz monocórdica as mesmas lições de uma geografia monótona e cartácea que nunca tinha visto como um Emilio Salgari sem magia, fumar silenciosamente o seu cigarro durante os intervalos e voltar para casa onde, depois de arrumar as fichinhas da lição do dia e de uma chávena de chá com uma mão-cheia de biscoitos secos, se deitava. Todos os dias olhava nos olhos os alunos que, entre o temor e a irreverência, o fitavam com ânsia. Começavam sempre o ano com a ânsia própria de quem não sabe o que o espera enquanto ele apenas pretendia que o dia escorresse lentamente entre a capital de um país asiático e as monoculturas do México. Com uma maior frequência do que o bom-gosto, a decência e a correcção podiam causar um político decretava a mudança da forma de ensinar e ele lá tinha que dar saltos mortais para iludir as controleiras das comissões pedagógicas e restante gado de bico. Todos os anos tentavam classificar a nova geração como um modelo genético de ignorância. Não importava tanto que se formassem inteiras gerações de ignorantes e/ou de irresponsáveis, o importante era que um obscuro politiqueiro que se tinha visto promovido a ministro por obra sem graça do Espírito Santo de Orelha e do Compadrio apresentasse sempre novas estatísticas que demonstrassem o elevado grau de literacia e a cultura profunda da população juvenil. Todos os anos tinha de fazer de peão neste jogo sujo. Já nem ligava e deixava escorrer torrentes de ignorância com a mesma naturalidade com que recebia o vencimento. ao fim e ao cabo, de nada lhe servia revoltar-se, o ir contra a corrente era inútil e contrário ao seu carácter dócil e acomodatício. O mais importante era ir vivendo sem perturbar demasiado a tranquilidade da sua rotina. Uma rotina sempre igual, feita de gestos imutáveis e eternos, precisa como o vinco das calças e estreita como a gravata que todas as manhãs fazia deslizar à volta do pescoço qual nó de forca perenemente adiada.
Levantou-se, lavou-se, barbeou-se, saiu, tomou o pequeno almoço entre o café e os cumprimentos do costume, apanhou o eléctrico e chegou à escola. Viu os contínuos que os saudavam com uma ligeira inclinação de cabeça enquanto os estudantes, escondidamente, se riam dele. Fumou o seu cigarro sem filtro e, ouvindo o toque, entrou na sala de aulas e deu com um silêncio que, de inesperado, o fez estremecer. Em vez das turmas barulhentas que habitualmente o acolhiam, sentiu o peso enorme do silêncio que durou alguns segundos: apenas o tempo de poisar a bolsa de pele onde a plaina do tempo já tinha feito sentir os seus efeitos, olhar os alunos nos olhos e, quando se preparava para começar a falar dos ciclos económicos do Brasil, receber um longo aplauso. Viu entrar a Presidente do Conselho Directivo, as autoridades escolares, os contínuos, os papás perenemente babados dos seus rebentos e o ambiente da sala aqueceu. Permaneceu mudo. Não percebia o significado de tudo aquilo. Ouviu a Presidente que começava uma longa e enfadonha ladaínha sobre o duro mester de se ser professor, sobre a falta de condições de trabalho, sobre o sentido missionário do dever, sobre o não reconhecimento da categoria profissional como devia ser, entre outros clichés que conseguiu reter antes de cair num estado de torpor geral. Foi arrancado desta espécie de catalépsia por um longo aplauso: a Presidente tinha acabado! Viu os colegas que se aproximavam e o felicitavam e só então percebeu que aquele era o seu último dia como professor e sentiu-se só.
Durante anos tinha sonhado com aquele dia e, agora, uma vez chegada a hora, sentia-se deprimido. Apercebia-se agora que toda a sua razão de ser tinha desaparecido. Não tinha com que passar os seus últimos dias. Não tendo nunca cultivado amores ou amizades não sabia com quem falar ou partilhar a velhice. Não possuia outros interesses: os culturais esgotavam-se nas suas notas para as lições, os afectivos nunca os tinha conhecido. Comeu, com uma certa náusea, uma fatia do doce que premurosamente lhe ofereciam e agradeceu timidamente fitando o chão. Depois, recolhendo-se num mutismo de bivalve, sentou-se e esperou pelo fim das comemorações. Saiu da escola com a coluna ainda mais inclinada do que de costume e caminhou sem destino através das ruas da cidade. Voltou a cair em si quando a noite já era senhora e encaminhou-se para casa. Nunca como agora tinha sentido a casa tão vazia. Preparou a habitual chávena de chá, jantou, preparou um banho quente, desligou o despertador e entrou na banheira. As primeiras luzes da aurora iluminaram o seu rosto de uma palidez insólita no meio de uma banheira com laivos avermelhados.

Ricardo Castelo Branco