segunda-feira, 29 de agosto de 2011
A poesia de Gaspara Stampa VI
XVI
Si come provo ognor novi diletti,
ne l'amor mio, e gioie non usate,
e veggio in quell'angelica beltate
sempre novi miracoli ed effetti,
così vorrei aver concetti e detti
e parole a tant'opra appropriate,
sì che fosser da me scritte e cantate,
e fatte cónte a mille alti intelletti.
Et udissero l'altre che verranno
con quanta invidia lor sia gita altera
de l'amoroso mio felice danno;
e vedesse anche la mia gloria vera
quanta i begli occhi suoi luce e forza hanno
di far beata altrui, benché si pèra.
XVI
Assim como sinto sempre novos prazeres,
nem o amor meu, e alegrias não usadas,
e percebo naquela angélica beleza
sempre novos milagres e efeitos,
assim queria ter conceitos e ditos
e palavras a tant'obra apropriados,
assim que fossem por mim escritos e cantados,
e prestadas contas a mil altos intelectos.
E ouvissem as outras que virão
com quanta inveja quanto o seu caminho contrário
do amoroso meu feliz dano;
e visse ainda a minha glória vera
quanto os belos olhos seus luz e força têem
de fazer feliz outras, ainda que morra.
XVII
Io non v'invidio punto, angeli santi,
le vostre tante glorie e tanti beni,
e que' disir di ciò che braman pieni,
stando voi sempre a l'alto Sire avanti;
perché i diletti miei son tali e tanti,
che non posson capire in cor terreni,
mentr'ho davanti i lumi alti e sereni,
di cui conven che sempre scriva e canti.
E come in ciel gran refrigerio e vita
dal volto Suo solete voi fruire,
tal io qua giù da la beltà infinita.
In questo sol vincete il mio gioire,
che la vostra è eterna e stabilita,
e la mia gloria può tosto finire.
XVII
Não vos invejo em nada, anjos santos,
as vossas tantas glórias e tantos bens,
e aquele desejo daquilo que bramam cheios,
estando vós sempre ao alto Senhor diante;
porque os dilectos meus são tais e tantos,
que não podem caber em corações terrenos,
enquanto tenho diante os lumes altos e serenos,
de que convém que sempre escreva e cante.
E como no céu grande refrigério e vida
do vulto Seu costumais vós fruir,
como eu aqui em baixo da beleza infinita.
Só nisto venceis o meu gozar,
que a vossa é eterna e estabelecida,
e a minha glória pode breve findar.
XVIII
Quando i' veggio apparir il mio bel raggio,
parmi veder il sol, quand'esce fòra;
quando fa meco poi dolce dimora,
assembra il sol che faccia suo viaggio.
E tanta nel cor gioia e vigor aggio,
tanta ne mostro nel sembiante allora,
quanto l'erba, che pinge il sol ancora
a mezzo giorno nel più vago maggio.
Quando poi parte il mio sol finalmente,
parmi l'altro veder, che scolorita
lasci la terra andando in occidente.
Ma l'altro torna, e rende luce e vita;
e del mio chiaro e lucido oriente
è 'l tornar dubbio e certa la partita.
XVIII
Quando vejo surgir o meu belo raio,
parece-me ver o sol, quando surge;
quando faz em mim depois doce demora,
assemelha ao sol que faça a sua viagem.
E tanta no coração alegria e vigor tenho,
tanta mostro no semblante então,
quanta a erva, que tinge o sol ainda
ao meio dia do mais incerto maio.
Quando pois parte o meu sol finalmente,
parece-me o outro ver, que descolorido
deixe a terra andando para ocidente.
Mas o outro volta, e traz luz e vida;
e do meu claro e lúcido oriente
é o tornar dúbio e certa a partida.
XIX
Come chi mira in ciel fisso le stelle,
sempre qualcuna nova ve ne scorge,
che, non più vista pria, fra tanti sorge
chiari lumi del mondo, alme fiamelle;
mirando fisso l'alte doti e belle
vostre, signor, di qualcuna s'accorge
l'occhio mio nova, che materia porge,
onde di lei si scriva e si favelle.
Ma, sì come non può gli occhi del cielo
tutti, perch'occhio vegga, raccontare
lingua mortal e chiusa in uman velo,
io posso ben i vostri onor mirare,
ma la più parti d'essi ascondo e celo,
perché la lingua a l'opra non è pare.
XIX
Como quem mira no céu fixo as estrelas,
sempre alguma nova aí descobre,
que, não antes vista, entre tantas surge
claros lumes do mundo, almas ardentes;
mirando fixo as altas doutas e belas
vossas, senhor, de alguma se apercebe
o olhar meu de nova, que matéria alonga,
onde de ela se escreva e se fale.
Ma, assim como não pode os olhos do céu
todos, que olho veja, contar
língua mortal e fechada em humano véu,
eu posso bem as vostras honras mirar,
mas a maior parte desses escondo e oculto,
porque a língua à obra não é par.
(continua)
sábado, 13 de agosto de 2011
A poesia de Gaspara Stampa V
XIII
Chi darà penne d'aquila o colomba
al mio stil basso, sì ch'ei prenda il volo
da l'Indo al Mauro e d'uno in altro polo,
ove arrivar non può saetta o fromba?
e, quai chiara e risonante tromba,
la bellezza, il valor, al mondo solo,
di quel bel viso, ch'io sospiro e còlo,
descriva sì, che l'opra non soccomba?
Ma, poi che ciò m'è tolto, ed io poggiare
per me stessa non posso ove conviene,
sì che l'opra e lo stil vadan di pare,
l'udranno sol queste felici arene,
questo d'Adria beato e chiaro mare,
porto de' miei diletti e di mie pene.
XIII
Quem dará penas d'águia ou de pomba
ao meu estilo baixo, assim que ele prenda o voo
do Indo ao Mauro e de um ao outro polo,
onde chegar não pode flecha ou funda?
e. qual clara e ressonante trompa,
a beleza, o valor, ao mundo só,
daquele belo vulto, qu'eu suspiro e adoro,
descreva assim, que a obra não sucumba?
Mas, já que tal me é tolhido, e eu apoiar
por mim mesma não posso onde convém,
assim que obra e estilo vão a par,
a ouvirão apenas estas felizes arenas,
este de Adria beato e claro mar,
porto dos meus dilectos e das minhas penas.
XIV
Che meraviglia fu, s'al primo assalto,
giovane e sola, io restai presa al varco,
stando Amor quindi con gli strali e l'arco,
e ferendo per mezzo, or basso or alto,
indi 'l signor, che 'n rime orno e essalto
quanto più posso, e 'l mio dir resta parco,
con due occhi, anzi strai, che spesso incarco
han fatto al sole, e con un cor di smalto?
ed essendo da lato anche imboscate,
sì ch'a modo nessun fess'io difesa,
alta virtute e chiara nobiltate?
Da tanti e ta' nemici restai presa;
né mi duol, pur che l'alma mia beltate,
or che m'ha vinta, non faccia altra impresa.
XIV
Que maravilha foi, se no primeiro assalto,
jovem e só, fiquei pelo caminho,
estando Amor por isso com as setas e o arco,
e ferindo pelo meio. ora baixo ora alto,
de onde o senhor, que em rimas orno e exalto
quanto mais posso, e o meu dizer resta parco,
com dois olhos, ou ainda mais, que frequente ofensa
ao sol fizeram, e com um coração valente?
e sendo de lado também emboscada,
assim que de nenhum modo foss'eu defesa,
alta virtude e clara nobreza?
De tantos e tantos inimigos fiquei cativa;
nem me doí, desde qua a alma minha beleza,
ora que me venceu, não cometa outra empresa.
XV
Voi, che cercando ornar d'alloro il crine
per via di stile, al bel monte poggiate
con quante sí fe' mai salde pedate,
anime sagge, dotte e pellegrine,
in questo mar, che non ha fondo o fine,
le larghe vele innanzi a me spiegate,
e gli onori e le grazie ad un cantate
del mio signor sì rare e sì divine:
perché soggetto sì sublime e solo,
senz'altra aíta di felice ingegno,
può per se stesso al cielo alzarci a volo.
Io per me sola a dimostrar ne vegno
quanto l'amo ad ognum, quanto lo còlo;
ma de le lode sue non giungo al segno.
XV
Vós, que buscando ornar de louro a cabeça
devido ao estilo, ao belo monde apoiais
com quantos deis nunca firmes passos,
almas sábias, doutas e peregrinas,
neste mar, que não tem fundo ou fim,
as largas velas diante de mim desfraldadas,
e as honras e as as graças a uma voz cantadas
do meu senhor tão altas e tão divinas:
porque sujeito tão sublime e só,
sem outra ajuda de feliz engenho,
pode por si só ao ceu alçar-se em voo.
Eu por mim só demonstrar venho
quanto o amo a cada um, quanto o adoro;
mas os louvores seus não atinjo.
(continua)
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
A poesia de Gaspara Stampa IV
VIII
Se, così come sono abietta e vile
donna, posso portar sì alto foco,
perché non debbo aver almeno un poco
di ritraggerlo al mondo e vena e stile?
S'amor con novo, insolito focile,
ov'io non potea gir, m'alzò a tal loco,
perché non puó non con usato gioco
far la pena e la penna in me simile?
E, se non può per forza di natura,
puollo almen per miracolo, che spesso
vince, trapassa e rompe ogni misura.
Come ciò sia non posso dir espresso;
io provo ben che per mia gran ventura
mi sento il cor di novo stile impresso.
VIII
Se, assim como sou abjecta e vil
mulher, posso levar tão alto o fogo,
porque não devo ter somente um pouco
de desviá-lo do mundo em veia e estilo?
Se amor com nova, insólita alcova,
ond'eu não podia jazer, m'elevou a tal ponto,
porque não pode não com usado jogo
fazer pena e penas em mim iguais?
E, se não pode por força de natura,
pode-o somente por milagre, que frequente
vence, ultrapassa e quebra toda a medida.
Como tal seja não posso dizer expresso;
eu sinto bem que por minha grã ventura
sinto o coração de novo estilo impresso.
IX
S'avien ch'un giorno Amor a me mi renda,
e mi ritolga a questo empio signore;
di che paventa, e non vorrebbe, il core,
tal gioia del penar suo par che prenda;
voi chiamerete invan la mia stupenda
fede, e l'immenso e smisurato amore,
di vostra crudeltà, di vostro errore
tardi pentito, ove non è chi intenda.
Ed io, cantando la mia libertade,
da così duri lacci e crudi sciolta,
passerò lieta a la futura etade.
E, se giusto pregar in ciel s'ascolta,
vedrò forse anco in man di crudeltade
la vita vostra a mia vendetta involta.
IX
Se sucede que um dia Amor a mim me renda,
e me retira a este ímpio senhor;
dia que receia, e não o queria, o coração,
que tal gozo do penar seu igual receba;
Chamareis em vão a minha estupenda
fé, e o imenso e desmesurado amor,
da vossa crueldade, do vosso erro
tarde arrependido, quando ninguém ouvirá.
E eu, cantando a minha liberdade,
de tão crus e duros laços liberta,
passarei feliz à futura idade.
E, se o justo pregar no céu se escuta,
verei talvez ainda em jeito de crueldade
a vida vossa na minha vingança envolta.
(continua)
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Uma poesia de Francesco de Lemene
Francesco De Lemene (Lodi, 19 de Fevereiro de 1634 – Lodi, 24 de Julho de 1704) foi um poeta e librettista italiano.
Oriundo de uma família aristocrática, estuda na Università di Bologna e di Pavia, onde obtém diploma em 1655. Foi sucessivamente empregado na então administração espanhola, primeiro como orador público em Milão e posteriormente como decurião em Lodi. Em 1661 permanece em Roma onde frequenta o círculo de Cristina da Suécia. Foi nesta cidade que iniciou a sua actividade libretística. Em 1691 passa a fazer parte da Accademia dell'Arcadia com o pseudónimo literário de Arezio Gateatico.
In Giardin, ch’avea dipinto
La Natura in vaga scena,
Discorrean della lor pena
Una Rosa, ed un Giacinto.
Di quest’Aure ivi presenti
Mi diss’una in sua favella,
Che in tal guisa e Questo, e Quella
Intrecciavano i tormenti.
Piangi, o Rosa? E tu sospiri,
O Giacinto? Ahi duolo!
Ahi morte!Qual destin? qual dura sorte?
Onde il pianto? onde i sospiri?
Ti dirò la doglia acerba,
Onde, o Rosa, io sto languendo;
Che dal seno al labbro uscendo
Spesso il duol si disacerba.
Spiegherò la doglia anch’io,
Che trafigge il mio pensiero;
Perché dica il passeggiero,
Se v’ha duol simile al mio.
Dunque, o Rosa, in dolci metri
La cagion spiega del pianto.
Parla tu, Giacinto. Intanto
Fia, ch’io tregua al pianto impetri.
Se, Regina, è tuo diletto,
Rinovare il duol mi piace.
Odi me. Del Sol seguace
Fui fra tanti il piú diletto.
Ne’ suoi giri il divin Sole,
O se il giogo al Monte indora,
O se l’Horto egli colora,
Per compagno ognor mi vuole.
Che piú dir? De’ raggi amati
Mi colmai la cieca mente;
Perché trassi riverente
Nel suo sen sonni beati.
Picciol lobo (ah Pomo ingrato!)
Perché a me la morte diede,
Or morir per me si vede
Di me il Sole innamorato.
Quindi io spiego in queste foglie
Con un’Ahi, che n’esce fuori,
Il dolor de’ suoi dolori,
E le sue nelle mie doglie.
O Giacinto, io con fatica
Dirò il duol, che mi tormenta.
Ho ben’Alma, che lo senta,
Ma non Lingua, che lo dica.
Tu lo mira. Ho molle il Ciglio
Di rugiada lagrimosa,
Come Madre dolorosa,
Che perduto abbia il suo Figlio.
Volgi il guardo, ahi per pietade,
A mirar Vergine afflitta:
Vedi pur, che m’han trafitta,
Non so dir se Spine, o Spade.
Come tu, di macchia oscura
Io non ho le foglie impresse;
Perché il Sol per sua m’elesse,
E mi volle tutta pura.
Ma quel Sol, che mi dà vita,
È lo stesso, che m’uccide;
Che da me l’alma divide,
Se da me vuol far partita.
Quand’ei nasce, oh me felice!
Son tra i fior la fortunata,
E mi dice ognun beata;
Ma se muore, oh me infelice!
Ei nell’Orto, ed io nell’Horto,
Quando spunta, allora io spunto;
Ma, l’Occaso ad ambi giunto,
Muoro anch’io, quand’egli è Morto.
Qual con nuovo oscuro velo
Atra Notte il Mondo serra?
Qual tremor scuote la Terra?
Qual’orrore ingombra il Cielo?
Ahi. Tramonta il Sol, che adoro.
Or contempla il mio martire:
Anch’io muoro al suo morire.
Muoro, ahi lassa. Ahi lassa, muoro.
Qui gelò la Rosa, e svenne,
E cadea già sul terreno,
Ma, qual Figlio, entro il suo seno
Il Giacinto la sostenne.
Or se sola sí funesta
Di pietà, d’orror v’ingombra,
Che fia poi, se colta ogn’ombra,
Un bel ver si manifesta?
Finger volli, e finsi solo
Per pietà de’ vostri affetti;
E ’l coprii con duo Fioretti,
Per mostrar men fero il duolo.
Questi or vuol la Cetra mia
Disvelar pietosi inganni.
Il Giacinto era Giovanni,
E la Rosa era Maria.
No Jardim, que tinha pintado
A Natureza em vaga cena,
Discorriam das suas penas
Uma Rosa, e um Jacinto.
De estas Brisas então presentes
Me disse uma no seu linguarejar,
Que desse modo e Isto, e aquilo
Entrançavam os tormentos.
Choras, ó Rosa? E tu suspiras,
Ò Jacinto? Ah como me dói!
Ah morte!Qual destino? que dura sorte?
Onde o choro? onde os suspiros?
Te direi a dor pungente,
De que, ò Rosa, estou sofrendo;
Que do seio ao lábio saindo
Não raro a dor se atenua.
Explicarei a dor também eu,
Que trespassa o meu pensar;
Que assim diga o passageiro,
Se tendes dor semelhante à minha.
Logo, ò Rosa, em doces metros
A razão explica do pranto.
Fala tu, Jacinto. Enquanto
Tal, que eu tréguas ao pranto suplique.
Se, Rainha, é teu prazer,
Renovar a dor me apraz.
Odeias-me. Do Sol sequaz
Fui entre tantos o mais dilecto.
Nos seus cursos o divino Sol,
Ou se o jugo ao Monte doura,
Ou se o Horto ele colora,
Para companheiro sempre me quer.
Que mais dizer? Dos raios amado
Me enchi a cega mente;
Porque trouxesse reverente
No seu seio sonos felizes.
Pequeno lobo (ah Pomo ingrato!)
Porque a mim a morte deu,
Ora morrer par mim se vê
Diz-me o Sol enamorado.
Por isso o explico nestas folhas
Com um Ai, que de dentro vem,
A dor das suas dores,
E as suas nas minhas dores.
Ò Jacinto, eu com fadiga
Direi a dor, que me atormenta.
Tenho bem Alma, que o ouça,
Mas não língua, que o diga.
Tu o vês. Tenho mole o bordo
De orvalho lacrimoso,
Como Mater dolorosa,
Que perdido tenha o Filho.
Volve o olhar, ai por piedade,
A olhar Virgem aflita:
Vê também, que me trespassaram,
Não sei dizer se Espinhos, se Espadas.
Como tu, de mancha obscura
Não tenho eu as folhas impressas;
Porque o Sol para sua m'elegeu,
E me quer toda pura.
Mas aquele Sol, que me dá vida,
É o mesmo, que me mata;
Que me mim a alma divide,
Se de mim quer fazer partida.
Quand’ele nasce, ai sou feliz!
Sou entre as flores a afortunada,
E todas me chamam beata;
Mas se morre, ai sou infeliz!
Ele no Orto, e eu no Horto,
Quando surge, então eu surjo;
Mas, o Ocaso a ambos junto,
Morro também eu, quand’ele é Morto.
Quem com novo obscuro véu
Escura Noite o Mundo encerra?
Que tremor sacode a Terra?
Que horror enche os Céus?
Ai. Desce o Sol, que adoro.
Ora contempla o meu martírio:
Também eu morro ao seu morrer.
Morro, ai coitada. Ai coitada, morro,
Aqui gelou a Rosa, e desfalece,
E caia já em terra,
Mas, qual Filho, no seu seio
O Jacinto a susteve.
Ora se só tão funesta
De piedade, de horror vos enche,
que seja então, se colhida cada sombra,
Que um bel verso se manifeste?
Fingir quis, e fingi apenas
Por piedade dos vossos afectos;
E os cobri com dois Floreados,
Para mostrar quão fera a dor.
Estes or quer a Cítara minha
Desvelar piedosos enganos.
O Jacinto era Giovanni,
E a Rosa era Maria.
Lodovico Antonio Muratori - Della perfetta poesia italiana
Um soneto di Baldassare Stampa
Felice cuor, che vinto dal disio
Da me partisti, e seguitando Amore,
Che ti condusse del mio albergo fuore,
Nel dolce albergo entrasti, ond’egli uscío.
Se ti ricordi, che pur fosti mio,
Quando, lasso, io vivea tempo migliore,
Ascolta i prieghi miei, che ’l fero ardore
Mi detta, e l’aspro affanno acerbo, e rio,
Poiché venir non posso, ove tu sei,
E siccome tu prima in me ti stavi,
Cosí in te starmi ore tranquille, e liete;
Dí, raccontando il mio tormento a lei:
Non piú, Donna, per voi dolore aggravi
Il fedel, ch’io reggeva, or voi reggete.
Feliz coração, que vencido pelo desejo
De mim partiste, e seguindo Amor
que te conduziu do meu albergue para fora,
No doce albergue entraste, donde ele saiu.
Se te recordas, que contudo foste meu,
Quando, coitado, eu vivia tampos melhores,
Escuta as preces minhas, que o fero ardor
Me dita, e o áspero aperto acerbo, e rio,
Pois que ir não posso, onde tu estás,
E tal como antes em mim tu estavas,
Assim em ti estaria horas tranquilas, e felizes;
Díz, contando o meu tormento a ela:
Não mais, Mulher, por vós dor agrave
O fiel, que sustinha, ora vós susteides.
in Lodovico Antonio Muratori; Della perfetta poesia italiana
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Fur Osguinha: um soneto de Gaspara Stampa
VI
Un intelletto angelico e divino,
una real natura ed un valore,
un disio vago di fama e d'onore,
un parlar saggio, grave e pellegrino,
un sangue illustre, agli alti re vicino,
una fortuna a poche altre minore,
un'età nel suo proprio e vero fiore,
un atto onesto, mansueto e chino,
un viso più che 'l sol lucente e chiaro,
ove bellezza e grazia Amor riserra
in non mai più vedute o udite tempre,
fûr le catene, che già mi legâro,
e mi fan dolce ed onorata guerra.
O pur piaccia ad Amor che stringan sempre!
VI
Um intelecto angélico e divino,
uma real natura e um valor,
um desejo vago de fama e de honra,
um falar sábio, grave e pelegrino,
um sangue ilustre, aos altos reis vizinho,
uma fortuna a poucos outros menor,
um'idade verdadeiramente em flor,
um agir honesto, brando e humilde,
uma face mais que o sol luzente e clara,
onde beleza e graça o Amor encerra
em nunca mais vistas ou ouvidas têmperas,
foram as correntes, que já me agrilhoaram,
e me fazem doce e honrada guerra.
Que apraza a Amor que estreitem sempre!
(continua)
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
A poesia de Gaspara Stampa III
II
Era vicino il dì che 'l Creatore,
che ne l'atezza sua potea restarsi,
in forma umana venne a dimostrarsi,
dal ventre virginal uscendo fore,
quando degnò l'illustre mio signore,
per cui ho tanti poi lamenti sparsi,
potendo in luogo più alto annidarsi,
farsi nido e ricetto del mio core.
Ond'io sì rara e sì alta ventura
accolsi lieta; e duolmi sol che tardi
mi fe' degna di lei l'eterna cura.
Da indi in qua pensieri e speme e sguardi
volsi a lui tutti, fuor d'ogni misura
chiaro e gentil, quanto 'l sol giri e guardi.
II
Era vizinho o dia que o Criador,
que nas alturas suas podia ficar,
em forma humana se veio a demonstrar,
do ventre virginal nascendo,
quando dignou o ilustre meu senhor,
por quem depois tantos lamentos espalhei,
podendo-se em mais alto sítio aninhar,
fazer-se ninho e refúgio do meu coração.
Onde tão rara e alta ventura
acolhi alegre; e só me doi que tarde
me fez digna de sí o eterno cuidar.
Desde então pensamentos e esperança e olhares
volvi a ele todos, fora de qualquer medida
claro e gentil, de quantos o sol cobre e vê.
III
Se di rozzo pastor di gregge e folle
il giogo ascreo fe diventar poeta
lui, che poi salse a sì lodata meta,
che quasi a tutti gli altri fama tolle,
che meraviglia fia s'alza ed estolle
me bassa e vile a scriver tanta pièta.
chel che può più che studio e pianeta,
il mio verde, pregiato ed alto colle?
La cui sacra, onorata e fatal ombra
dal mio cor, quasi sùbita tempesta,
ogni ignoranza, ogni bassezza sgombra.
Questa da basso luogo m'erge, e questa
mi rinova lo stil, la vena adombra,
tanta virtù nell'alma ognor mi desta!
III
Se de rude pastor de rebanhos e gentes
o jugo áscreo fez ser poeta
a ele, que depois subiu a tão louvada meta,
que quase a todos os outros fama tolhe,
que a maravilha sua se alça às estrelas
a mim baixa e vil no escrever tanta piedade,
aquele que mais pode que estrela e planeta,
o meu verde, prezado e alto monte?
Cuja sacra, honrada e fatal sombra
do meu coração, como súbita tempesta,
toda a ignorância, toda a baixeza livra.
Esta de baixo local me ergue, e esta
me renova o estilo, a veia realça,
tanta virtude na alma para sempre me desperta!
Áscreo - referência a Ascra, cidade da Beócia situada nas faldas do monte Hélicon e pátria de Hesíodo
Monte - no original "colle" apresenta um duplo sentido, o de "colina", "monte" que continua a referência ao Hélicon; e a referência ao objecto dos amores de Gaspara Stampa, o Conde Collantino di Collalto
IV
Quando fu prima il mio signor concetto,
tutti i pianeti in ciel, tutte le stelle
gli diêr le grazie, e queste doti e quelle,
perch'ei fossi tra noi solo perfetto,
Saturno diègli altezza d'intelletto;
Giove il cercar le cose deggne e belle;
Marte appo lui fece ogn'altr'uomo imbelle;
Febo gli empì di stile e senno il petto;
Vener gli diè bellezza e leggiadria;
eloquenzia Mercurio; ma la luna
lo fe' gelato più ch'io non vorria.
Di queste tante e rare grazie ognuna
m'inflammò de la chiara fiamma mia,
e per agghiacciar lui restò quell'una.
IV
Quando primeiro foi o meu senhor concebido,
todos os planetas no céu, todas as estrelas
graças lhe concederam, e estes dotes e aqueles,
para que fosse ele entre nós o único perfeito,
Saturno lhe deu a altura d'intelecto;
Jove o buscar as coisas dignas e belas;
Marte fez os outros homens vizinhos imbeles;
Febo lhe encheu de estilo e tino o peito;
Vénus lhe deu beleza e alegria;
eloquência Mercúrio; mas a Lua
o fez gelado mais do que eu não o queria.
Destas tantas e raras graças cada uma
me inflamou da clara chama minha,
e para gelar restou-lhe aquela.
V
Io assomiglio il mio signor al cielo
meco sovente. Il suo viso è 'l sole;
gli occhi, le stelle; e 'l suon de 'l parole
è l'armonia, che fa 'l signor de Delo.
Le tempeste, le piogge, i tuoni e 'l gelo
son i suoi sdegni, quando irar si suole;
le bonacce e 'l sereno è quando vuole
squarciar de l'ire sue benigno il velo.
La primavera e 'l germogliar de' fiori
è quando ei fa fiorir la mia speranza,
promettendo tenermi in questo stato.
L'orrido verno è poi, quando cangiato
minaccia di mutar pensieri e stanza,
spogliata me de' miei più ricchi onori.
V
Comparo eu o meu senhor ao céu
frequentemente. A sua face é o sol;
os olhos, as estrelas; e o som das palavras
é a harmonia que cria o Senhor de Delos.
As tempestades, chuvas, trovões e gelos
são seus desdéns, quando irar se deve;
as bonanças e o sereno quando quer
rasgar de iras suas o benigno velo.
A primavera e o brotar das flores
é quando faz florir a minha esperança,
prometendo manter-me neste estado.
O hórrido inverno é logo, quando mudado
ameaça de mudar de pensar e de quarto,
despojada eu das minhas mais ricas honras.
Senhor de Delos - O deus Apolo que aí era venerado e tinha um importante santuário
VII
Chi vuol conoscer, donne, il mio signore,
miri un signor di vago e dolce aspetto,
giovane d'anni e vecchio d'intelletto,
imagin de la gloria e del valore:
di pelo biondo, e di vivo colore,
di persona alta e spazioso petto,
e finalmente in ogni opra perfetto,
fuor ch'un poco (oimè lassa!) empio in amore.
E chi vuol poi conoscer me, rimìri
una donna in effetti ed in sembiante
imagin de la morte e de' martìri,
un albergo di fè salda e costante,
una, che, perché pianga, arda e sospiri,
non fa pietoso il suo crudel amante.
VII
Quem conhecer queira, ó mulheres, o meu senhor,
mire um senhor de vago e doce aspecto,
jovem de anos e velho de intelecto,
imagem da glória e do valor:
de pelo louro e de viva cor,
alto de pessoa e de espaçoso peito,
efinalmente em todas as obras perfeito,
menos que um pouco (ai de mim!) ímpio no amor.
E quem quiser depois me conhecer, veja
uma mulher nas vestes e no semblante
imagem da morte e dos martírios,
um albergue de fe férrea e constante,
uma que, porque chore, arda e suspire,
não faz piedoso o seu cruel amante.
X
Alto colle, gradito e graciozo,
novo Parnaso mio, novo Elicona,
ove poggiando attendo la corona,
de le fatiche mie dolce riposo;
quanto sei qui tra noi chiaro e famoso,
e quanto sei a Rodano e a Garona,
a dir in rime alto dísio mi sprona,
ma l'opra è tal, che cominciar non oso.
Anzi quanto averrà che mai ne canti,
fia pura ombra del ver, perciò che 'l vero
va di lungo il mio stil e l'altrui innanti.
Le tue frondi e 'l tuo giogo verdi e 'ntero
conservi 'l cielo, albergo degli amanti
colle gentil, dignissimo d'impero.
X
Alta colina, aprazível e graciosa,
novo Parnaso meu, novo Hélicon,
onde repousando espero a coroa,
das fadigas minhas doce repouso;
quanto és aqui entre nós claro e famoso,
e quanto o és no Ródano e na Garona,
dizê-lo em rimas alto desejo me espicaça,
mas a obra é tal, que começar não ouso.
Antes, quanto será que nunca o cante,
seja pura sombra do verso, de molde que o vero
vá mais longe que o meu estilo o o outro antes.
Os teus ornatos e o teu jugo verde e inteiro
conservo o céu, albergo dos amantes
colina gentil, digníssima de império.
colina - vide nota ao soneto III
Ródano e Garona - referência à presença de Collantino di Colalto, durante o ano de 1549, na campanha pela reconquista de Boulogne-sur-mer e no casamento de Orazio Farnese com Diana, filha ilegítima de Henrique II de França
XI
Arbor felice, aventuroso e chiaro,
onde i duo rami sono al mondo nati,
che vanno in alto, e son già tanto alzati,
quanto raro altri rami unqua s'alzaâro;
rami che vanno ai grandi Scipi a paro,
o s'altri fûr di lor mai più lodati
(ben lo sanno i miei occhi fortunati,
che per bearsi in uno d'essi mirâro),
a te, tronco, a voi, rami, sempre il cielo
piova rugiada, sì che non v'offenda
per avversa stagion caldo, né gelo.
La chioma vostra e l'ombra s'apra e stenda
verde per tutto; e d'onorato zelo
odor, fior, frutti a tutt'Italia renda.
XI
Árvore feliz, aventurosa e clara,
onde os dois ramos são para o mundo nados,
que alto vão, e são tanto já alçados,
quão raro outros ramos já se alçaram;
ramos que vão dos grandes Scipiões a par,
ou se outros foram do que eles mais louvados
(bem o sabem os meus olhos afortunados,
que por delícia num desses se miraram),
a ti, tronco, a vós, ramos, sempre o céu
chova orvalho, de modo que vos não ofenda
por adversa estação quente, nem gelo.
Que a copa vossa e a sombra se abra e estenda
verde no todo, e de honrado zelo
odor, flor, frutos a tod'Itália traga.
dois ramos - referência aos dois ramos da árvore genealógica de Collantino di Collalto: Collatino e Vinciguerra
grandes Scipiões - Referência a Públio Cornélio Scipião e ao seu filho adoptivo Públio Cornélio emiliano, famosos por feitos de letras e armas
XII
Deh, perché così tardo gli occhi apersi
nel divin, non umano amato volto,
ond'io scorgo, mirando, impresso e scolto
un mar d'alti miracoli e diversi?
Non avrei, lassa, gli occhi indarno aspersi
d'inutil pianto in questo viver stolto,
né l'ama avria, com'ha, poco né molto
di fortuna o d'amore onde dolersi.
E sarei forse de sì chiaro grido,
che, mercé de lo stil, ch'indi m'è dato,
risoneria fors'Adria oggi, e 'l suo lido.
Ond'io sol piango il mio tempo passato,
mirando altrove; e forse anche mi fido
di far in parte il foco mio lodato.
XII
Deus, porque tão tarde os olhos abri
para o divino, não humano amado vulto,
onde percebo, mirando, impresso e esculpido
um mar d'altos milagres e diversos?
Não teria, coitada, os olhos debalde húmidos
d'inútil pranto neste viver estulto,
nem a alma teria, como tem, pouco nem muito
de fortuna ou de amor de que doer-se.
E serei talvez por tão claro grito,
que, mercê do estilo, que ora me é dado,
a risota talvez da Adria de hoje, e do seu lido.
Ond'eu só choro o meu tempo passado,
olhando alhures; e talvez também me fie
em afastar o fogo meu louvado.
Adria e do seu lido - Veneza e suas possessões marítimas no Adriático
(continua)
domingo, 31 de julho de 2011
A poesia de Gaspara Stampa II
CXLIV
Ricorro a voi, luci beate e dive,
a voi che sète le mie fide scorte,
da poi che'l cielo, Amor, fortuna e sorte
sono ai soccorsi miei sì tardi e schive.
Se per me in voi si spera e 'n voi si vive,
come avien che per voi pur si comporte
a star lunge da me quest'ore corte,
che 'l mio ben la pietà vostra prescrive?
Deh non state oggimai da me più lunge!
Fate che questo breve spazio sia
concesso a me dávervi sempre presso;
ché l'ardente disio tanto mi punge,
che certo finirá la vita mia,
se non m'è 'l vagheggiarvi ognor concesso.
CXLIV
Recorro a vós, luzes beatas e divas,
a vós que soides as minhas fidas reservas,
desde que céu, Amor, fortuna e sorte
são em meu socorro tão tardas e esquivas.
Se para mim em vós se espera e em vós se vive,
como pode suceder que vós suporteis
estar longe de mim durante estas horas curtas,
que o meu bem a piedade vossa prescreve?
Deus, não estaide nunca mais de mim longe!
Fazei com que este breve espaço seja
concedido a mim de ter-vos sempre junto;
que o ardende desejo a tanto me obriga,
que certo finirá a vida minha,
se não me for o contemplar-vos sempre concedido.
(continua)
sábado, 30 de julho de 2011
A poesia de Gaspara Stampa I
Procurando na PORBASE ,não encontrei nenhuma edição das Rime e muito menos traduções, pelo que julgo ser a presente uma primeira tradução para língua portuguesa. Sendo uma das vozes femininas que mais me agradam é provável que a esta se sucedam outras...
I
Voi ch'ascoltate in queste meste rime,
in questi mesti, in questi oscuri accenti
il suon degli amorosi miei lamenti
e delle pene mie tra l'altre prime,
ove fia chi valor apprezzi e stime,
gloria, non che perdon, de' miei lamenti
spero trovar fra le ben nate genti,
poi che la lor cagione è si sublime.
E spero ancor che debba dir qualcuna:
-- Felicissima lei, da che sostenne
per sì chiara cagion danno sì chiaro!
Deh, perché tant'amor, tanta fortuna
per sì nobil signor a me non venne,
ch'anch'io n'andrei con tanta donna a paro?
I
Vós que escutais nestas suaves rimas,
nestes suaves, nestes obscuros acentos,
o som dos amorosos meus lamentos
e das penas minhas entr'as outras primas,
onde haja quem valor aprecie e estime,
glória, não o perdão, dos meus lamentos
espero achar entre as bem nascidas gentes,
pois que a sua causa é tão sublime.
E espero ainda que deva dizer alguma:
-- Felicíssima sedes, pois que suportas
por tão clara causa dano tão claro!
Deus, porquê tant'amor, tanta fortuna,
por tão nobre senhor a mim não vem,
que também eu não iria com tanta mulher a par?
(continua)
A poesia de Liutprando de Cremona - II

Nubibus omnipotens Heloim cum condere Phoebi
lumina chrisocomi venerandus coeperit atris
vertice cumque polus summo clangore remugit
fulgura crebra volant throno demissa Tonantis
ignea: mox trepidant qui nigrum in candida vertunt
conscia tum metuunt scelerum sulcare suorum
pectora Vulcano pariter ruitura superno
haud secus e vacuis volitant concussa pharetris
spicula scinduntur validae quis terga loricae.
Concutit ipsa ruens segetes cum grando superba
fit sonitus clangorque simul per tecta sonorus
sic galeae strictis reboant tunc ensibus ictae
corpora sicque cadunt mutuis confossa sagittis.
Quando o omnipotente e venerando Elói a ocultar começa
entre negras núvens os raios do dourado Febo
e o céu do alto ruge de intenso fragor
lançados do trono do Tonante voam bastos raios
de fogo: logo tremem os que o negro em alvo mutam;
temem então que firam as almas cônscias
dos próprios erros, pares a Vulcano que do alto fere:
ou não voltejam de já vazias aljavas lançados
dardos, capazes do dorso da válida couraça quebrar.
Quando do alto o granizo as colheitas fustiga,
sonoro e igual fragor nos tectos soa:
assim de desembainhadas espadas os elmos batidos então ressoam
assím os corpos tombam das mútuas flechas perfurados.
Trata-se de uma descrição da batalha de Augusta, que decorreu em Junho de 910 no vale do Lech, e que opôs Ludovico IV, A Criança, às tropas magiares e que se concluiu com a derrota do primeiro.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
A poesia de Liutprando de Cremona - I
Liutprando ( Bispo de Cremona) (Pavia, 920 ? - 972) foi um historiador, bispo e diplomata ao serviço do Sacro Império Romano e autor de obras em latim medieval. Liutprando de Cremona deixou-nos três obras de cariz histórico: a Antapodosis, seu rerum per Europam gestarum, Libri VI (relato histórico, com especial incidência na península itálica e cobrindo o arco de tempo que vai de 887 a 949), a Relatio de legatione Constantinopolitana ad Nicephorum Phocam (relato da sua embaixada junto do Basileus bizantino Nicéforo Phocas e que cobre os anos de 968-69) e, por último, o Liber de rebus gestis Ottonis Magni Imperatoris, também conhecido pelo nome de Historia Ottonis (crónica de seu patrono, o imperador Oto I, cobrindo os anos 960 a 64). Convém aqui precisar uma questão: o conceito de história para um homem do século X é substancialmente diverso daquele a que estamos habituados hoje. Esta afirmação é válida quer quanto ao conteúdo, à matéria narrada e aos pressupostos histórico-culturais que presidiram à sua elaboração; quer quanto à forma, ou melhor, há diversidade de formas usadas na sua elaboração. Assim sendo, não é de espantar que, inseridos no corpo narrativo da Antapodosis e, já em menor número, da Relatio de legatione Constantinopolitana ad Nicephorum Phocam, o leitor possa deparar com momentos de poesia, de métrica muito irregular, mas que, pelo seu carácter inovador, constituem um pequeno tesouro esquecido da literatura europeia.
Falamos de esquecimento e com justa razão. Efectuando uma rápida pesquisa no PORBASE encontramos um total de quatro registos relativos à obra de Liutprando de Cremona. A estes se poderia juntar a presença em Portugal de edições dos Monumenta Germaniae Historica. Nenhuma edição portuguesa, nenhuma edição facilmente acessível. A presente tradução destes fragmentos reveste-se então de uma oportunidade única de dar a conhecer a obra de tão prodigiosa figura da história da Europa. O critério adoptado será o de procurar um texto tão fluido quanto possível no estrito respeito do sentido original. Devido à enorme diferença entre as duas línguas e entre os esquemas métricos não serão tidas em conta aqui essas questões. Tal não implica que não se procure manter uma mancha gráfica semelhante à do texto original que republicamos. Agradecem-se sugestões de tradução que possam levar à melhoria das mesmas.
Cada um dos excertos traduzidos será igualmente sucedido por uma breve mas necessária contextualização histórica.
Ipse qui condam superare gentes
impias bello solitus cruento
novimus nunc rex dederis popello
morte tu quantas propria ruinas.
Turba certatim viduata karo
rege iam cesset lacrimare quando
alter exurgit venerandus orbi
filius patri similis cluenti
Otto rex gentes dicione magna
qui premet pacemque feret beatam.
Quicquid Heinrici periit recessu
praestitit claro populis hic ortu
blandus et mitis patiensque sanctis
pestifer durus rabidusque saevis.
Bella nonnullis tibi sunt gerenda
ex quibus nomen referens in astra
cuncta calcabis pedibus per orbem
quae premit tardus radians Bootes
et quibus nomen dedit Hesper almus
Lucifer rursus vocitatus idem
surgit Eoo properans corusco.
E tu que superar as gentes
ímpias de cruenta guerra costumavas,
ora sabemos, ó Rei, quanto ao povo deste
com tua morte grandes males.
Que a competidora turba viúva do caro
rei ora cesse de chorar, que
outro de veneranda orbe digno inicia,
filho do pai famoso par,
Oto rei, que de magna autoridade as gentes
submeterá e paz serena fará.
Quanto com a morte de Enrico feneceu
ao povo devolveu, de nobre linhagem,
doce, suave e paciente com os pios,
pestífero, duro e raivoso com os ímpios.
Por ti as guerras geradas contra tantos,
cujos nomes aos astros elevando
com os pés calcarás por toda a Orbe
que o lento Boieiro cobre radioso
e a quem Espero o nome deu, o grande
Lucífer por sua vez chamado
s'apresta a surgir do coruscante Eoo.
O texto refere-se ao falecimento de Enrico da Saxónia em 936 e à eleição de Oto I como Rei dos Germanos e futuro Imperador do Sacro Império Romano. O Boieiro é uma constelação, por Espero entenda-se a designação mitológica do Poente, por Lúcifer a estrela da manhã e Eoo designa um dos cavalos que puxam o carro do sol conduzido mitologicamente por Hélio.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
2 Poemas de Ievgueni Ievtuchenko

A presente tradução é igualmente dedicada ao meu amigo João Só que hoje comemora o seu aniversário.
Monologo dell'uomo di dopodomani
Non avevano un partito Adamo e Eva,
l'arca fu ideata dall'apartitico Noè.
Tutti i partiti, con sorrisetto maligno,
l'inventò il diavolo -- ha cattivo gusto.
E forse nel cuore della mela stessa,
qual verme era rinchiusa -- verme e serpente in una --
la politica -- professione di origine diabolica --
e gli uomini sono inverminiti poi.
La politica inventò la polizia,
la politica inventò i capi,
contò la persona viva con l'unità
e suddivise gli uomini in partiti.
Dov'è della vedova il partito, del mutilato, del pellegrino,
del bambino e della famiglia il partito dov'è?
Dov'è il confine tra Magadan e Majdanek,
e tra Oswiecim e Songmi?
Un giorno, un giorno, un giorno,
ai trisnipoti dei tempi odierni tutti i partiti
verrano a mente come remota cosa,
come selvaggia, stragrande Babilonia.
E un mondo ci sarà senza mutilati sul sagrato,
senza storpi morali al potere,
e un unico partito in esso:
il suo semplice nome --uomo.
Monólogo do homem de depois de amanhã
Não tinham um partido Adão e Eva,
a arca foi ideada pelo apartidário Noé.
Todos os partidos, com um sorriso maligno,
inventou-os o diabo -- que tem mau gosto.
E talvez no coração da própria maçã,
qual verme estava encerrada -- verme e serpente em uma --
a política -- profissão de origem diabólica --
e os homens criaram bicho então.
A política inventou a polícia,
a política inventou os chefes,
contou a pessoa viva com a unidade
e subdividiu os homens em partidos.
Onde está da viúva o partido, do mutilado, do peregrino,
da criança e da família o partido onde está?
Onde é a fronteira entre Magadan e Majdanek,
e entre Oswiecim e Songmi?
Um dia, um dia, um dia,
aos trinetos dos tempos hodiernos todos os partidos
ocorreram à mente como remota coisa,
como selvangem, enormíssima Babilónia.
E um mundo existirá sem mutilados no sagrado,
sem estorpiados morais no poder,
e num único partido nele:
o seu simples nome --homem.
(escrita em 1972, publicada em 1991)
Formica afgana
Giace un ragazzo russo sulla terra afgana.
Lungo un suo zigomo avanza formica-musulmana.
Da giorni il morto non si rade. Farsi strada è fatica...
A lui con esile voce sussurra la formica:
«tu non sai dove esattamente per le ferite sei spirato.
Questo solo sai -- da qualche parte è stato, presso l'Iran.
Perché mai comparisti con l'arma contro di noi,
tu che qui per prima volta sentisti la parola "islam"?
Alla nostra patria -- di per sé scalza e indigente,
tu che cosa darai -- la fila per un niente?
Venti milioni di morti non vi bastano ancora,
per volercene aggiungere ora?»
Giace un ragazzo russo sulla terra afgana.
Lungo un suo zigomo avanza formica-musulmana,
e vuole le ortodosse consimili pregare,
ché il ragazzo sollevino, riescano a rianimare.
Ma nella patria a nord, di vedove e orfani,
sono rimaste in poche tali formiche.
Formiga afegã
Jaz um rapaz russo na terra afegã.
Ao longo do seu malar avança a formiga-muçulmana.
São já dias que o morto não se barbeia. Fazer estrada é fadiga...
A ele com débil voz sussurra a formiga:
«tu não sabes onde exactamente de feridas expiraste.
Isto apenas sabes -- em qualquer parte foi, junto ao Irão.
Porque compareceste com a arma contra nós,
tu que aqui pela primeira vez ouviste a palavra "islão"?
À nossa pátria -- de per si descalça e indigente,
que coisa darás -- a bicha para um nada?
Vinte milhões de mortes te não bastam ainda,
para querer juntar-lhe outros agora?»
Jaz um rapaz russo na terra afegã.
Ao longo do seu malar avança a formiga-muçulmana,
e quer as ortodoxas congéneres rogar,
que o rapaz ergam, consigam reanimar.
Mas na pátria a Norte, de viúvas e orfãos,
poucas ficaram de tais formigas.
(escrita em 1983, publicada em 1990)
sábado, 23 de julho de 2011
Um excerto de Cesare Pavese

A nós o vale levava-nos a um vinhedo quase plano, cercada por choupos. Que coisa lá fazíamos até à noite, não o sei. Olháva-mos para a ponta das árvores. Eu dizia a Gosto que no mar nunca acendem fogueiras, porque o mar é plano, e deitado na erva aborrecia-me a olhar para as núvens. Havia também grilos naquela vinha, e teria querido ser um deles para aí ficar à noite e aí me encontrar de manhã com as primeiras luzes, quando o sol é ainda frio. O sol nasce para nós por detrás das colinas baixas, lá onde o avô do Gosto tinha visto em rapaz o mar.
Que o mar fosse daquela parte, tinha-o dito ao Gosto. Nos dias de tempestade, era lá que clareava e que o sol voltava a bater como sobre um grande campo de flores, enquanto das nossas partes gotejava ainda. Eu ao mar imaginei-o sempre como um céu sereno visto por detrás da água. O estradão que desce para aquelas colinas não é uma estrada de campo; conduz para fora do vale, para uma planície que desce sempre, que tem árvores que parecem jardins. Logo na curva, depois de desembocar no vale, depois da ponte de ferro, está a casinha da Piana que tem uma varanda com gerânios. Alí não há vinhas nem bosques nem estábulos; os carros de bois não sobem por aí; sobem ao invés velozmente as carroças e comitivas com guarda-sóis.
Durante toda a noite de S. João, Gosto tinha passeado pelo povoado e eu não tinha podido irporque em nossa casa os fogos veem-se do terraço. Gosto esperava-me em baixo, na estrada, e mostrávamos um ao outro gritando as fogueiras mais longínquas e as maiores. Mas depois passou a banda que ia para a aldeia - lá estavam todos, até o Cândido - e ie eu agarrava-me às grades e chamava-os; Cândido parou para cumprimentar as minhas irmãs e rir; depois retomaram a fila tocando, e com eles Gosto, e lá foram para a praça e por toda a noite se ouviu o clarinete de Cândido e trombones e guitarras e cantar em voz alta, especialmente as mulheres. Nós fomos dormir que já as últimas fogueiras se extinguiam nas colinas negras, chorava de raiva na cama, mas as vozes difusas dos bêbedos e dos cães fizeram-me pensar na minha vinha do vale e nas carroças e colinas que no dia seguinte reveria à vontade.
No dia seguinte, em vez, não fomos para além das nogueiras, e a Gosto a avó dele apontava-me como exemplo. Gosto ria. Em minha casa diziam-me que o tomasse como exemplo, só no mundo com a avó, era quase toda a família. Não serve contar agora o que havíamos feito no colégio em Alba. Não me criam. Diziam e dizem que o Gosto é mais homem do que eu. Em minha casa desconhecem o que diz.
Contudo, a ideia do mar veio-me a mim, não a ele. O Gosto não sabe o que seja estar diante de uma casa, e olhá-la até que esta não pareça mais uma casa. O Gosto é tão senhor de si que faz tudo o que lhe dizem, mas ele só por si não chega lá. Ainda agora não quer acreditar quando lhe explico que a estrada não tem fim, como não têem fim as linhas férreas, e de aldeia em aldeia prosseguem enquanto há terra sem que se interrompa nunca. Diz que, se assim fosse, as pessoas não deixariam de caminhar e todos dariam a volta ao mundo. E na nossa estrada passariam continuamente estrangeiros de todos os lugares. «Todas as estradas acabam no mar», dizia-lhe «onde estão os portos. De lá embarca-se para as ilhas, onde as estradas recomeçam.»
Não estava convencido de que para ir ao mar bastasse encaminhar-se. «É necessário conhecer a estrada», dizia. «Mas a estrada é sabida. Segue a que vai para a Piana.» «Será longe?»«Se das Ca' Rosse o teu avô o viu.» «Há quantos anos o viu?»
Um dia fomos à loja do carreteiro que nos gozava por não sabermos andar descalços. Parei na soleira e quase nada vi noa escuridão dos fornos, mas ouvi malhar no ferro e Pietro perguntou-me se ia à escola com o Gosto. Disse-nos que com a nossa idade tinha já atravessado as montanhas para ir trabalhar e que coisa sabíamos fazer nós? Apercebi-me então que nada sabíamos fazer. Naquele momento Pietro tinha deixado de malhar, e Gosto dizia: «Nós nascemos calçados». «Assim é», disse Pietro sem se irritar. «Nascesteis calçados.»
Pensei muito nas palavras de Pietro, e no dia seguinte passaos pela loja para retomar a conversa. Pietro não se tinha afastado da forja e disse-nos que não lhe tapássemos a luz.
Naquele dia contou-nos que em rapaz tinha sido serralheiro e que viajaram ele e o patrão procurando trabalho nos pátios e levando com eles a forja e o carvão. Para passar as montanhas tinham devido usar calçado de corda. Depois tinham trabalhado nas minas de carvão, tão longe que para voltar tinha sido necessário o comboio. enquanto contava dirigiu-se para a porta e olhou para a praça. «E o mar, Pietro, viste-o?» disse-lhe Gosto. Disse-nos então que tinha estado em Marselha e que alí o mar o tinha diante da porta. Olhou para a praça onde caia a sombra da casa e disse: «Como se estivesse aqui na praça. E movimento de dia e de noite. Mais do que no mercado grande». Cuspiu contra o sol e voltou para dentro.
Nós perguntamos-lhe como é a costa mas não sabia ou não percebeu o que queríamos. Disse que sim, que a água é verde e sempre em movimento e que continuamente espuma, mas que nunca dentro dele tinha estado e que não sabia como fosse a terra vista do largo. Contou-nos que os navios são de uma cor entre o vermelho e o negro e que o porto tem um odor como o das estações. Disse que carrega e descarrega mais carvão o porto em um dia do que carros de uvas todas as nossas colinas. E que os marinheiros, os estrangeiros também, se vestem como nós e não pensam que em voltar para casa. «O mar é cansativo», dizia. «É necessário nascer-se descalço.»
Veio o mês de Agosto, entre as primeiras e as segundas colheitas, quando no campo nada mais se faz e o dia dura ainda metade da noite. Sucedia que fosse para a cama quando fora era ainda dia e ouvia no caminho por debaixo do terraço os outros rir e a gente passar. Com qualquer desculpa era mandado para a cama. Se Gosto vinha à minha procura, diziam-lhe que era tarde e que já estava a dormir.
in Férias de Agosto
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Mais um poema de Guido Gozzano: La forza

La forza
A Mario B., lottatore
Bestialità divina, amico Mario,
quando affatichi i muscoli ben atti
e cingi e premi, ansando, e scuoti a tratti
il torso dell'atletico avversario!
Bene sai l'arte della forza. In vario
modo lo spossi e incalzi e pieghi e abbatti;
ti sussulta nei muscoli contratti
non so che desiderio sanguinario.
Gràvagli sopra, crudelmente bello,
con le scapole fa ch'egli riverso
tocchi la rena e "vinto" gli si gridi!
Ridevole miseria d'un cervello
quando il proteso già pollice verso
"Uccidi - griderei - Uccidi! Uccidi!"
A força
A Mario B., lutador
Bestialidade divina, amigo Mario,
quando afadigas os músculos bem aptos
e cinges e premes, ofegante, e a golpes bates
o torso do atlético adversário!
Bem conheces a arte da força. De vários
modos o evitas e persegues e dobras e abates;
freme-te nos músculos contraídos
não sei que desejo sanguinário.
Apoia-lhe em cima, cruelmente belo,
com as escápulas faz com que ele deitado
toque na areia e "vencido" se lhe grite!
Risível miséria de um cérebro
quando já teso o polegar está
"Mata - gritaria - Mata! Mata!"
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Alguns poemas de Guido Gozzano

Guido Gozzano (Turim, 19 de Dezembro de 1883 - Turim, 9 de Agosto de 1916) foi um poeta italiano crepuscular.
Gozzano, muito embora seja autor de uma importante produção poética, permanece um desconhecido para o grande público português. Não tendo nunca sido objecto de edições e traduções para a língua portuguesa, apenas o conhecem por cá os que se interessam pelas letras italianas. O presente conjunto de poesias traduzidas, com todas as limitações que lhes poderem vir a ser reconhecidas, fazem parte de um projecto pessoal de tradução integral da poesia de Guido Gozzano em que me encontro empenhado, que se encontra ainda em fase inicial, e que gostaria de um dia vir a publicar por pensar ser da mais elementar justiça que a sua obra seja conhecida e reconhecida.
Agradeço igualmente todas as críticas e sugestões que queiram ter a bondade de deixar uma vez que este é um caso de "work in progress". Se quiserem dar paulada julgo ter as costas bastante largas para as receber, porém, não sendo o masoquismo parte integrante da minha índole, escuso de vos agradecer.
Por uma questão de respeito pelo texto original todos os textos traduzidos serão precedidos do texto na língua original.
La medicina
Alla signora C. R. dalla bella voce
Non so che triste affanno mi consumi:
sono malato e nei miei dì peggiori...
Tra i balaustri il mar scintilla fuori
la zona dei palmeti e degli agrumi.
Ah! Se voi foste qui, tra questi fiori,
amica! O bella voce tra i profumi!
Se recaste con voi tutti i volumi
di tutti i nostri dolci ingannatori!
Mi direste il Congedo, oppur la Morte
del cervo, oppure la Sementa... E queste
bellezze, più che l'aria e più che il sole,
mi farebbero ancora sano e forte!
E guarirei: Voi mi risanereste
con la grande virtù delle parole!
O remédio
À senhora C. R. da bela voz
Não sei que triste tormento me consuma:
estou doente e nos meus dias piores...
Entre os balaústres o mar cintila fora
a zona das palmas e dos citrinos.
Ah! Fosses vós aqui, entre estas flores,
amiga! Ò bela voz entre os perfumes!
Se trouxeras com vós todos os volumes
de todos os nossos doces enganadores!
Me dirieis o "Congedo", ou a "Morte
del cervo", ou a "Sementa"... E estas
belezas, mais que o ar e mais que o sol,
me fariam ainda são e forte!
E curarei: Vós me curaríeis
com a grande virtude das palavras!
Il buon compagno
Non fu l'Amore, no. Furono i sensi
curiosi di noi, nati pel culto
del sogno... E l'atto rapido, inconsulto
ci parve fonte di misteri immensi.
Ma poi che nel tuo bacio ultimo spensi
l'ultimo bacio e l'ultimo sussulto,
non udii che quell'arido singulto
di te, perduta nei capelli densi.
E fu vano accostare i nostri cuori
già riarsi dal sogno e dal pensiero;
Amor non lega troppo eguali tempre.
Scenda l'oblio; immuni da languori
si prosegua più forti pel sentiero,
buoni compagni ed alleati: sempre.
O bom companheiro
Não foi o Amor, não. Foram os sentidos
curiosos nossos, nascidos do culto
do sonho... E o acto rápido, inconsulto
apareceu-nos fonte de mistérios imensos.
Mas já que no teu beijo apaguei
o último beijo e o último sobressalto,
não ouvi que aquele árido soluço
de ti, perdida nos cabelos densos.
E foi vão acercar os nossos corações
ardidos já de sonho e do pensar;
Que amor não liga demasiado iguais temperas.
Caia o olvido; imune aos langores
se prossiga mais fortes pelo caminho,
bons companheiros e aleados: sempre.
Salvezza
Vivere cinque ore?
Vivere cinque età?...
Benedetto il sopore
che m'addormenterà...
Ho goduto il risveglio
dell'anima leggiera:
meglio dormire, meglio
prima della mia sera.
Poi che non ha ritorno
il riso mattutino.
La bellezza del giorno
è tutta nel mattino.
Salvação
Viver cinco horas?
Viver cinco idades?...
Bendito o torpor
que me adormecerá...
Gozei o acordar
da alma suave:
melhor é dormir, melhor
antes do meu ocaso.
Pois que é sem retorno
o riso matutino.
A beleza do dia
está toda na manhã.
Congedo
Anche te, cara, che non salutai
di qui saluto, ultima. Coraggio!
Viaggio per fuggire altro viaggio.
In alto, in alto i cuori. E tu ben sai.
In alto, in alto i cuori. I marinai
cantano leni, ride l'equipaggio;
l'aroma dell'Atlantico selvaggio
mi guarirà, mi guarirà, vedrai.
Di qui, fra cielo e mare, o Benedetta,
io ti chiedo perdono nel tuo nome
se non cercai parole alla tua pena,
se il collo liberai da quella stretta
spezzando il cerchio della braccia, come
si spezza a viva forza una catena.
Despedida
A ti também, cara, que não saudei
daqui saudo, por última. Coragem!
Viajo para fugir a outra viagem.
Ao alto, corações ao alto. E tu bem sabes.
Ao alto, corações ao alto. Os marinheiros
cantam com alento, ri a equipagem;
o aroma do Atlântico selvagem
curar-me-há, curar-me-há, verás.
Daqui, entre céu e mar, ó Bendita,
eu te peço perdão em teu nome
se palavras não busquei a tuas penas,
se o pescoço libertei daquele aperto
quebrando o círculo dos braços, como
se quebra à viva força uma cadeia.
La più bella
I.
Ma bella più di tutte l'Isola Non-Trovata:
quella che il Re di Spagna s'ebbe da suo cugino
il Re di Portogallo con firma sugellata
e bulla del Pontefice in gotico latino.
L'Infante fece vela pel regno favoloso,
vide le fortunate: Iunonia, Gorgo, Hera
e il Mare di Sargasso e il Mare Tenebroso
quell'isola cercando... Ma l'isola non c'era.
Invano le galee panciute a vele tonde,
le caravelle invano armarono la prora:
con pace del Pontefice l'isola si nasconde,
e Portogallo e Spagna la cercano tuttora.
II.
L'isola esiste. Appare talora di lontano
tra Teneriffe e Palma, soffusa di mistero:
"...l'Isola Non-Trovata!" Il buon Canarïano
dal Picco alto di Teyde l'addita al forestiero.
La segnano le carte antiche dei corsari.
...Hifola da - trovarfi? ...Hifola pellegrina?...
È l'isola fatata che scivola sui mari;
talora i naviganti la vedono vicina...
Radono con le prore quella beata riva:
tra fiori mai veduti svettano palme somme,
odora la divina foresta spessa e viva,
lacrima il cardamomo, trasudano le gomme...
S'annuncia col profumo, come una cortigiana,
l'Isola Non-Trovata... Ma, se il pilota avanza,
rapida si dilegua come parvenza vana,
si tinge dell'azzurro color di lontananza...
A mais bela
I.
Mais bela que todas a Ilha Não-Achada:
aquela que o Rei d'Espanha teve de seu primo
o Rei de Portugal com assinatura selada
e bula do Pontífice em gótico latim.
O Infante vogou pelo reino fabuloso,
viu as afortunadas: Junónia, Gorgo, Hera
e o Mar dos Sargaços e o Mar Tenebroso
aquela ilha buscando... Mas a ilha não existia.
Em vão as galés bojudas de velas tondas,
as caravelas em vão armaram as proas:
com paz do Pontífice a ilha se oculta,
e Portugal e Espanha a buscam ainda agora.
II.
A ilha existe. Aparece por vezes na distância
entre Tenerife e Palma, encoberta de mistério:
"...A Ilha Não-Achada!" O bom Canário
do Pico alto de Teyde a aponta ao forasteiro.
Marcam-na as cartas antigas dos corsários.
...Ilha por-achar? ... Ilha peregrina?...
Éa ilha fadada que desliza pelos mares;
por vezes os navegantes a vêem vizinha...
Razam com as proas aquela beata ria:
entre flores nunca vistas assomam palmas sumas,
odora a divina floresta espessa e viva,
chora o cardamomo, transudam as borrachas...
Anuncia-se com o perfume, como uma cortesã,
a Ilha Não-Achada... Mas se o piloto avança,
rápida se afasta como aparência vã,
se tinge da azul cor da distância...
Ad un'ignota
Tutto ignoro di te: nome, cognome,
l'occhio, il sorriso, la parola, il gesto;
e sapere non voglio, e non ho chiesto
il colore nemmen delle tue chiome.
Ma so che vivi nel silenzio; come
care ti sono le mie rime: questo
ti fa sorella nel mio sogno mesto,
o amica senza volto e senza nome.
Fuori del sogno fatto di rimpianto
forse non mai, non mai c'incontreremo,
forse non ti vedrò, non mi vedrai.
Ma più di quella che ci siede accanto
cara è l'amica che non mai vedremo;
supremo è il bene che non giunge mai!
A uma desconhecida
Tudo de ti ignoro: nome, apelido,
o olho, o sorriso, a fala, o gesto;
e saber não quero e não demando
a cor sequer da tua cabeleira.
Mas sei que vives no silêncio; como
caras te são as minhas rimas: isto
te faz irmã no meu sonho triste,
ó amiga sem vulto e sem nome.
Fora do sonho feito de nostalgia
talvez não mais, não mais nos acharemos,
talvez não te verei, não me verás.
Mas mais que aquela que a nós se senta junto
cara é a amiga que nunca mais veremos;
supremo é o bem que não se alcança mais!
«Il sogno cattivo» de Guido Gozzano
Não conhecendo nenhuma tradução para português, a presente é da minha lavra.

Il sogno cattivo
Se guardo questo pettine sottile
di tartaruga e d’oro, che affigura –
opera egregia di cesellatura –
un germoglio di vischio in novo stile,
risogno un sogno atroce. Dal monile
divampa quella gran capellatura
vostra, fiammante nella massa oscura.
E pur non vedo il volto giovenile.
Solo vedo che il pettine produce
sempre capelli biondo-bruni e scorgo
un cielo fatto delle loro trame:
un cielo senza vento e senza luce!
E poi un mare… e poi cado in un gorgo
tutto di bande di color di rame.
O Sonho mau
Se olho para este pente fino
de tartaruga e d’oiro, que parece –
obra egrégia de cinzeladura –
um rebento de visco em novo estilo,
Ressonho um sonho atroz. Da jóia
alastra aquela grande cabeleira
vossa, flamejante na massa obscura.
E contudo não vejo o vulto juvenil.
Só vejo que o pente produz
sempre cabelos loiro escuro e diviso
um céu feito só das suas tramas:
Um céu sem vento e sem luz!
Depois um mar... e caio num vórtice
todo de faixas de cor de cobre.
