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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS: DA CONDIÇÃO HUMANA

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.


in José Carlos Ary dos Santos, A liturgia do sangue

domingo, 7 de agosto de 2011

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS: PAVANA PARA UMA BURGUESA DEFUNTA

A cabeça de vaca de minha tia mais velha
repousa em guerra lenta no cemitério maior.
Rói-lhe o bicho das contas a fímbria da orelha.
Rói-lhe o rato da raiva as narinas sem cor.

Repousa em paz Raposa que na toca
fareja a galinhola e o fricassé.
Já não mija mas cheira
já não vive mas ousa
ser a santa que foi ser o estrume que é.

A cabeça de vaca de minha tia refoga
nas lágrimas burguesas da família enlatada
cozinha-lhe a memória um viúvo de toga
descasca-lhe a cebola uma filha frustrada.

A cabeça de vaca de minha tia meneia
o sim-sim o não-não dos outros semivivos
na família a razão de se morrer a meias
é a exalação dos suspiros cativos.

Se não fosse o desgosto se não fosse a gordura
o retrato na sala o buraco no ventre
se não fosse de força tinha feito a escritura
nem sequer houve tempo para o oiro dos dentes.

Minha tia mastiga minha tia castiga
na saleta do inferno as almas dos criados:
-- não me limpaste o pó a campa tem urtigas
atrasaste o jantar dos condenados.

A cabeça de vaca de minha tia sem nome
coze no fogo brando do que é passar à história.
Dissolve-se na boca resolve-se na fome
do senhor que a devora em sua santa glória.



in INSOFRIMENTO IN SOFRIMENTO (1969)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A pintura de Susana Dias

Uma das consolações da vida que me fazem acordar bem é o sentir que na dança da vida é melhor saber bailar e vivê-la na sua plenitude do que ver passar os comboios como bucólicos ruminantes em horacianos prados; e tal deve-se, precisamente, ao poder contemplar um quadro de Susana Dias ao acordar. A intrincada vertigem dos corpos na dança, recortada em luz sobre fundo escuro, a fazer lembrar certos contrastes de Caravaggio, recorda-me da vertigem do novo dia e de como sobreviver ao Maelstrom que se avizinha.
Não tendo autorização da artista não irei revelar aqui a sua imagem tanto mais que o quadro me não pertence. Convido-vos, contudo, a apreciarem uma amostra significativa da última exposição individual da pintora, realizada em Outubro de 2007 em Lisboa e de quem se espera com ânsia a apresentação de novos trabalhos.
Recordo-me que a exposição se encontrava distribuída em dois grandes blocos, pintura a acrílico e tinta da china. Em ambos se respirava uma sensualidade inquietante, em que os corpos, num abandono tenso reflectem as sombras das almas que revestem. Mas, longe de nos inquietar, são por nós reconhecidos como familiares devido a recriarem obras igualmente familiares num cenário íntimo de interiores. Um pouco como se as intimidades habitacionais ajudassem a reconsiderar o interior dos seres que os povoam.
Sou detentor de um quadro de Susana Dias que, por falta de paredes cá por casa, se encontra emprestado ao Shiado Hostel. Trata-se de uma pequena e acolhedora unidade hoteleira onde de forma informal se promove, no centro de Lisboa e em pleno coração do Chiado, a troca de culturas e experiências assim como a divulgação do que temos de melhor tanto na arte de bem receber como através da exposição de obras de pintores portugueses contemporâneos. Para mais informações o link segue no final.



the strawbery thief


sem titulo


rapariga amestrada


it's possible to die


fabulas para balthus



boy with a pipe



poemas de almofada I


poemas de almofada II


poemas de almofada III


poemas de almofada IV


poemas de almofada V

Link do Shiado Hostel: http://www.shiadohostel.com/