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domingo, 14 de agosto de 2011

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS: O RELÓGIO (adereço conceptual para usar no pulso)


Pára-me um tempo por dentro
passa-me um tempo por fora.

O tempo que foi constante
no meu contratempo estar
passa-ma agora adiante
como se fosse parar.
Por cada relógio certo
no tempo que sou agora
há um tempo descoberto
no tempo que se demora.
Fica-me o tempo por dentro
passa-me o tempo por fora.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS: DA CONDIÇÃO HUMANA

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.


in José Carlos Ary dos Santos, A liturgia do sangue

domingo, 7 de agosto de 2011

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS: A LUVA


O aceno penumbra da tua mão camurça
a lágrima em branco do teu rosto livro
a página momento que o teu gesto segura
por detrás do livro


in ADEREÇOS, ENDEREÇOS (1965)

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS: PAVANA PARA UMA BURGUESA DEFUNTA

A cabeça de vaca de minha tia mais velha
repousa em guerra lenta no cemitério maior.
Rói-lhe o bicho das contas a fímbria da orelha.
Rói-lhe o rato da raiva as narinas sem cor.

Repousa em paz Raposa que na toca
fareja a galinhola e o fricassé.
Já não mija mas cheira
já não vive mas ousa
ser a santa que foi ser o estrume que é.

A cabeça de vaca de minha tia refoga
nas lágrimas burguesas da família enlatada
cozinha-lhe a memória um viúvo de toga
descasca-lhe a cebola uma filha frustrada.

A cabeça de vaca de minha tia meneia
o sim-sim o não-não dos outros semivivos
na família a razão de se morrer a meias
é a exalação dos suspiros cativos.

Se não fosse o desgosto se não fosse a gordura
o retrato na sala o buraco no ventre
se não fosse de força tinha feito a escritura
nem sequer houve tempo para o oiro dos dentes.

Minha tia mastiga minha tia castiga
na saleta do inferno as almas dos criados:
-- não me limpaste o pó a campa tem urtigas
atrasaste o jantar dos condenados.

A cabeça de vaca de minha tia sem nome
coze no fogo brando do que é passar à história.
Dissolve-se na boca resolve-se na fome
do senhor que a devora em sua santa glória.



in INSOFRIMENTO IN SOFRIMENTO (1969)

terça-feira, 26 de julho de 2011

José Carlos Ary dos Santos: Poeta Castrado, Não!


Serei tudo o que disserem

por inveja ou negação:

cabeçudo dromedário

fogueira de exibição

teorema corolário

poema de mão em mão

lãzudo publicitário

malabarista cabrão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!

Os que entendem como eu

as linhas com que me escrevo

reconhecem o que é meu

em tudo quanto lhes devo:

ternura como já disse

sempre que faço um poema;

saudade que se partisse

me alagaria de pena;

e também uma alegria

uma coragem serena

em renegar a poesia

quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu

a força que tem um verso

reconhecem o que é seu

quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala

é tão vulgar que nos cansa

mas que dizer de uma bala

num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história

a morte é branda e letal

mas que dizer da memória

de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser

o poema dia a dia?

Um bisturi a crescer

nas coxas de uma judia;

um filho que vai nascer

parido por asfixia?!

Ah não me venham dizer

que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem

por temor ou negação:

Demagogo mau profeta

falso médico ladrão

prostituta proxeneta

espoleta televisão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!


José Carlos Ary dos Santos