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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A poesia de Gaspara Stampa VI

(continuação)

XVI

Si come provo ognor novi diletti,
ne l'amor mio, e gioie non usate,
e veggio in quell'angelica beltate
sempre novi miracoli ed effetti,
così vorrei aver concetti e detti
e parole a tant'opra appropriate,
sì che fosser da me scritte e cantate,
e fatte cónte a mille alti intelletti.
Et udissero l'altre che verranno
con quanta invidia lor sia gita altera
de l'amoroso mio felice danno;
e vedesse anche la mia gloria vera
quanta i begli occhi suoi luce e forza hanno
di far beata altrui, benché si pèra.


XVI

Assim como sinto sempre novos prazeres,
nem o amor meu, e alegrias não usadas,
e percebo naquela angélica beleza
sempre novos milagres e efeitos,
assim queria ter conceitos e ditos
e palavras a tant'obra apropriados,
assim que fossem por mim escritos e cantados,
e prestadas contas a mil altos intelectos.
E ouvissem as outras que virão
com quanta inveja quanto o seu caminho contrário
do amoroso meu feliz dano;
e visse ainda a minha glória vera
quanto os belos olhos seus luz e força têem
de fazer feliz outras, ainda que morra.



XVII

Io non v'invidio punto, angeli santi,
le vostre tante glorie e tanti beni,
e que' disir di ciò che braman pieni,
stando voi sempre a l'alto Sire avanti;
perché i diletti miei son tali e tanti,
che non posson capire in cor terreni,
mentr'ho davanti i lumi alti e sereni,
di cui conven che sempre scriva e canti.
E come in ciel gran refrigerio e vita
dal volto Suo solete voi fruire,
tal io qua giù da la beltà infinita.
In questo sol vincete il mio gioire,
che la vostra è eterna e stabilita,
e la mia gloria può tosto finire.


XVII

Não vos invejo em nada, anjos santos,
as vossas tantas glórias e tantos bens,
e aquele desejo daquilo que bramam cheios,
estando vós sempre ao alto Senhor diante;
porque os dilectos meus são tais e tantos,
que não podem caber em corações terrenos,
enquanto tenho diante os lumes altos e serenos,
de que convém que sempre escreva e cante.
E como no céu grande refrigério e vida
do vulto Seu costumais vós fruir,
como eu aqui em baixo da beleza infinita.
Só nisto venceis o meu gozar,
que a vossa é eterna e estabelecida,
e a minha glória pode breve findar.



XVIII

Quando i' veggio apparir il mio bel raggio,
parmi veder il sol, quand'esce fòra;
quando fa meco poi dolce dimora,
assembra il sol che faccia suo viaggio.
E tanta nel cor gioia e vigor aggio,
tanta ne mostro nel sembiante allora,
quanto l'erba, che pinge il sol ancora
a mezzo giorno nel più vago maggio.
Quando poi parte il mio sol finalmente,
parmi l'altro veder, che scolorita
lasci la terra andando in occidente.
Ma l'altro torna, e rende luce e vita;
e del mio chiaro e lucido oriente
è 'l tornar dubbio e certa la partita.


XVIII

Quando vejo surgir o meu belo raio,
parece-me ver o sol, quando surge;
quando faz em mim depois doce demora,
assemelha ao sol que faça a sua viagem.
E tanta no coração alegria e vigor tenho,
tanta mostro no semblante então,
quanta a erva, que tinge o sol ainda
ao meio dia do mais incerto maio.
Quando pois parte o meu sol finalmente,
parece-me o outro ver, que descolorido
deixe a terra andando para ocidente.
Mas o outro volta, e traz luz e vida;
e do meu claro e lúcido oriente
é o tornar dúbio e certa a partida.



XIX

Come chi mira in ciel fisso le stelle,
sempre qualcuna nova ve ne scorge,
che, non più vista pria, fra tanti sorge
chiari lumi del mondo, alme fiamelle;
mirando fisso l'alte doti e belle
vostre, signor, di qualcuna s'accorge
l'occhio mio nova, che materia porge,
onde di lei si scriva e si favelle.
Ma, sì come non può gli occhi del cielo
tutti, perch'occhio vegga, raccontare
lingua mortal e chiusa in uman velo,
io posso ben i vostri onor mirare,
ma la più parti d'essi ascondo e celo,
perché la lingua a l'opra non è pare.


XIX

Como quem mira no céu fixo as estrelas,
sempre alguma nova aí descobre,
que, não antes vista, entre tantas surge
claros lumes do mundo, almas ardentes;
mirando fixo as altas doutas e belas
vossas, senhor, de alguma se apercebe
o olhar meu de nova, que matéria alonga,
onde de ela se escreva e se fale.
Ma, assim como não pode os olhos do céu
todos, que olho veja, contar
língua mortal e fechada em humano véu,
eu posso bem as vostras honras mirar,
mas a maior parte desses escondo e oculto,
porque a língua à obra não é par.



(continua)

sábado, 13 de agosto de 2011

A poesia de Gaspara Stampa V

(continuação)

XIII

Chi darà penne d'aquila o colomba
al mio stil basso, sì ch'ei prenda il volo
da l'Indo al Mauro e d'uno in altro polo,
ove arrivar non può saetta o fromba?
e, quai chiara e risonante tromba,
la bellezza, il valor, al mondo solo,
di quel bel viso, ch'io sospiro e còlo,
descriva sì, che l'opra non soccomba?
Ma, poi che ciò m'è tolto, ed io poggiare
per me stessa non posso ove conviene,
sì che l'opra e lo stil vadan di pare,
l'udranno sol queste felici arene,
questo d'Adria beato e chiaro mare,
porto de' miei diletti e di mie pene.


XIII

Quem dará penas d'águia ou de pomba
ao meu estilo baixo, assim que ele prenda o voo
do Indo ao Mauro e de um ao outro polo,
onde chegar não pode flecha ou funda?
e. qual clara e ressonante trompa,
a beleza, o valor, ao mundo só,
daquele belo vulto, qu'eu suspiro e adoro,
descreva assim, que a obra não sucumba?
Mas, já que tal me é tolhido, e eu apoiar
por mim mesma não posso onde convém,
assim que obra e estilo vão a par,
a ouvirão apenas estas felizes arenas,
este de Adria beato e claro mar,
porto dos meus dilectos e das minhas penas.



XIV

Che meraviglia fu, s'al primo assalto,
giovane e sola, io restai presa al varco,
stando Amor quindi con gli strali e l'arco,
e ferendo per mezzo, or basso or alto,
indi 'l signor, che 'n rime orno e essalto
quanto più posso, e 'l mio dir resta parco,
con due occhi, anzi strai, che spesso incarco
han fatto al sole, e con un cor di smalto?
ed essendo da lato anche imboscate,
sì ch'a modo nessun fess'io difesa,
alta virtute e chiara nobiltate?
Da tanti e ta' nemici restai presa;
né mi duol, pur che l'alma mia beltate,
or che m'ha vinta, non faccia altra impresa.



XIV

Que maravilha foi, se no primeiro assalto,
jovem e só, fiquei pelo caminho,
estando Amor por isso com as setas e o arco,
e ferindo pelo meio. ora baixo ora alto,
de onde o senhor, que em rimas orno e exalto
quanto mais posso, e o meu dizer resta parco,
com dois olhos, ou ainda mais, que frequente ofensa
ao sol fizeram, e com um coração valente?
e sendo de lado também emboscada,
assim que de nenhum modo foss'eu defesa,
alta virtude e clara nobreza?
De tantos e tantos inimigos fiquei cativa;
nem me doí, desde qua a alma minha beleza,
ora que me venceu, não cometa outra empresa.



XV

Voi, che cercando ornar d'alloro il crine
per via di stile, al bel monte poggiate
con quante sí fe' mai salde pedate,
anime sagge, dotte e pellegrine,
in questo mar, che non ha fondo o fine,
le larghe vele innanzi a me spiegate,
e gli onori e le grazie ad un cantate
del mio signor sì rare e sì divine:
perché soggetto sì sublime e solo,
senz'altra aíta di felice ingegno,
può per se stesso al cielo alzarci a volo.
Io per me sola a dimostrar ne vegno
quanto l'amo ad ognum, quanto lo còlo;
ma de le lode sue non giungo al segno.


XV

Vós, que buscando ornar de louro a cabeça
devido ao estilo, ao belo monde apoiais
com quantos deis nunca firmes passos,
almas sábias, doutas e peregrinas,
neste mar, que não tem fundo ou fim,
as largas velas diante de mim desfraldadas,
e as honras e as as graças a uma voz cantadas
do meu senhor tão altas e tão divinas:
porque sujeito tão sublime e só,
sem outra ajuda de feliz engenho,
pode por si só ao ceu alçar-se em voo.
Eu por mim só demonstrar venho
quanto o amo a cada um, quanto o adoro;
mas os louvores seus não atinjo.



(continua)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A poesia de Gaspara Stampa IV

(continuação)

VIII

Se, così come sono abietta e vile
donna, posso portar sì alto foco,
perché non debbo aver almeno un poco
di ritraggerlo al mondo e vena e stile?
S'amor con novo, insolito focile,
ov'io non potea gir, m'alzò a tal loco,
perché non puó non con usato gioco
far la pena e la penna in me simile?
E, se non può per forza di natura,
puollo almen per miracolo, che spesso
vince, trapassa e rompe ogni misura.
Come ciò sia non posso dir espresso;
io provo ben che per mia gran ventura
mi sento il cor di novo stile impresso.


VIII

Se, assim como sou abjecta e vil
mulher, posso levar tão alto o fogo,
porque não devo ter somente um pouco
de desviá-lo do mundo em veia e estilo?
Se amor com nova, insólita alcova,
ond'eu não podia jazer, m'elevou a tal ponto,
porque não pode não com usado jogo
fazer pena e penas em mim iguais?
E, se não pode por força de natura,
pode-o somente por milagre, que frequente
vence, ultrapassa e quebra toda a medida.
Como tal seja não posso dizer expresso;
eu sinto bem que por minha grã ventura
sinto o coração de novo estilo impresso.


IX

S'avien ch'un giorno Amor a me mi renda,
e mi ritolga a questo empio signore;
di che paventa, e non vorrebbe, il core,
tal gioia del penar suo par che prenda;
voi chiamerete invan la mia stupenda
fede, e l'immenso e smisurato amore,
di vostra crudeltà, di vostro errore
tardi pentito, ove non è chi intenda.
Ed io, cantando la mia libertade,
da così duri lacci e crudi sciolta,
passerò lieta a la futura etade.
E, se giusto pregar in ciel s'ascolta,
vedrò forse anco in man di crudeltade
la vita vostra a mia vendetta involta.



IX

Se sucede que um dia Amor a mim me renda,
e me retira a este ímpio senhor;
dia que receia, e não o queria, o coração,
que tal gozo do penar seu igual receba;
Chamareis em vão a minha estupenda
fé, e o imenso e desmesurado amor,
da vossa crueldade, do vosso erro
tarde arrependido, quando ninguém ouvirá.
E eu, cantando a minha liberdade,
de tão crus e duros laços liberta,
passarei feliz à futura idade.
E, se o justo pregar no céu se escuta,
verei talvez ainda em jeito de crueldade
a vida vossa na minha vingança envolta.


(continua)

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Luís Vaz de Camões: AMOR É FOGO QUE ARDE SEM SE VER



Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


in Luís Vaz de Camões, Lírica

Um soneto di Baldassare Stampa

Irmão de Gaspara Stampa do qual sabemos relativamente pouco: o ter sido dado à arte de poetar e a sua inscrição num ciclo de poetas admiradores de Pietro Aretino.

Felice cuor, che vinto dal disio
Da me partisti, e seguitando Amore,
Che ti condusse del mio albergo fuore,
Nel dolce albergo entrasti, ond’egli uscío.

Se ti ricordi, che pur fosti mio,
Quando, lasso, io vivea tempo migliore,
Ascolta i prieghi miei, che ’l fero ardore
Mi detta, e l’aspro affanno acerbo, e rio,

Poiché venir non posso, ove tu sei,
E siccome tu prima in me ti stavi,
Cosí in te starmi ore tranquille, e liete;

Dí, raccontando il mio tormento a lei:
Non piú, Donna, per voi dolore aggravi
Il fedel, ch’io reggeva, or voi reggete.




Feliz coração, que vencido pelo desejo
De mim partiste, e seguindo Amor
que te conduziu do meu albergue para fora,
No doce albergue entraste, donde ele saiu.

Se te recordas, que contudo foste meu,
Quando, coitado, eu vivia tampos melhores,
Escuta as preces minhas, que o fero ardor
Me dita, e o áspero aperto acerbo, e rio,

Pois que ir não posso, onde tu estás,
E tal como antes em mim tu estavas,
Assim em ti estaria horas tranquilas, e felizes;

Díz, contando o meu tormento a ela:
Não mais, Mulher, por vós dor agrave
O fiel, que sustinha, ora vós susteides.


in Lodovico Antonio Muratori; Della perfetta poesia italiana

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Fur Osguinha: um soneto de Gaspara Stampa

(continuação)

VI

Un intelletto angelico e divino,
una real natura ed un valore,
un disio vago di fama e d'onore,
un parlar saggio, grave e pellegrino,
un sangue illustre, agli alti re vicino,
una fortuna a poche altre minore,
un'età nel suo proprio e vero fiore,
un atto onesto, mansueto e chino,
un viso più che 'l sol lucente e chiaro,
ove bellezza e grazia Amor riserra
in non mai più vedute o udite tempre,
fûr le catene, che già mi legâro,
e mi fan dolce ed onorata guerra.
O pur piaccia ad Amor che stringan sempre!


VI

Um intelecto angélico e divino,
uma real natura e um valor,
um desejo vago de fama e de honra,
um falar sábio, grave e pelegrino,
um sangue ilustre, aos altos reis vizinho,
uma fortuna a poucos outros menor,
um'idade verdadeiramente em flor,
um agir honesto, brando e humilde,
uma face mais que o sol luzente e clara,
onde beleza e graça o Amor encerra
em nunca mais vistas ou ouvidas têmperas,
foram as correntes, que já me agrilhoaram,
e me fazem doce e honrada guerra.
Que apraza a Amor que estreitem sempre!


(continua)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A poesia de Gaspara Stampa III

(continuação)


II


Era vicino il dì che 'l Creatore,
che ne l'atezza sua potea restarsi,
in forma umana venne a dimostrarsi,
dal ventre virginal uscendo fore,
quando degnò l'illustre mio signore,
per cui ho tanti poi lamenti sparsi,
potendo in luogo più alto annidarsi,
farsi nido e ricetto del mio core.
Ond'io sì rara e sì alta ventura
accolsi lieta; e duolmi sol che tardi
mi fe' degna di lei l'eterna cura.
Da indi in qua pensieri e speme e sguardi
volsi a lui tutti, fuor d'ogni misura
chiaro e gentil, quanto 'l sol giri e guardi.



II


Era vizinho o dia que o Criador,
que nas alturas suas podia ficar,
em forma humana se veio a demonstrar,
do ventre virginal nascendo,
quando dignou o ilustre meu senhor,
por quem depois tantos lamentos espalhei,
podendo-se em mais alto sítio aninhar,
fazer-se ninho e refúgio do meu coração.
Onde tão rara e alta ventura
acolhi alegre; e só me doi que tarde
me fez digna de sí o eterno cuidar.
Desde então pensamentos e esperança e olhares
volvi a ele todos, fora de qualquer medida
claro e gentil, de quantos o sol cobre e vê.



III


Se di rozzo pastor di gregge e folle
il giogo ascreo fe diventar poeta
lui, che poi salse a sì lodata meta,
che quasi a tutti gli altri fama tolle,
che meraviglia fia s'alza ed estolle
me bassa e vile a scriver tanta pièta.
chel che può più che studio e pianeta,
il mio verde, pregiato ed alto colle?
La cui sacra, onorata e fatal ombra
dal mio cor, quasi sùbita tempesta,
ogni ignoranza, ogni bassezza sgombra.
Questa da basso luogo m'erge, e questa
mi rinova lo stil, la vena adombra,
tanta virtù nell'alma ognor mi desta!



III


Se de rude pastor de rebanhos e gentes
o jugo áscreo fez ser poeta
a ele, que depois subiu a tão louvada meta,
que quase a todos os outros fama tolhe,
que a maravilha sua se alça às estrelas
a mim baixa e vil no escrever tanta piedade,
aquele que mais pode que estrela e planeta,
o meu verde, prezado e alto monte?
Cuja sacra, honrada e fatal sombra
do meu coração, como súbita tempesta,
toda a ignorância, toda a baixeza livra.
Esta de baixo local me ergue, e esta
me renova o estilo, a veia realça,
tanta virtude na alma para sempre me desperta!


Áscreo - referência a Ascra, cidade da Beócia situada nas faldas do monte Hélicon e pátria de Hesíodo
Monte - no original "colle" apresenta um duplo sentido, o de "colina", "monte" que continua a referência ao Hélicon; e a referência ao objecto dos amores de Gaspara Stampa, o Conde Collantino di Collalto



IV


Quando fu prima il mio signor concetto,
tutti i pianeti in ciel, tutte le stelle
gli diêr le grazie, e queste doti e quelle,
perch'ei fossi tra noi solo perfetto,
Saturno diègli altezza d'intelletto;
Giove il cercar le cose deggne e belle;
Marte appo lui fece ogn'altr'uomo imbelle;
Febo gli empì di stile e senno il petto;
Vener gli diè bellezza e leggiadria;
eloquenzia Mercurio; ma la luna
lo fe' gelato più ch'io non vorria.
Di queste tante e rare grazie ognuna
m'inflammò de la chiara fiamma mia,
e per agghiacciar lui restò quell'una.


IV

Quando primeiro foi o meu senhor concebido,
todos os planetas no céu, todas as estrelas
graças lhe concederam, e estes dotes e aqueles,
para que fosse ele entre nós o único perfeito,
Saturno lhe deu a altura d'intelecto;
Jove o buscar as coisas dignas e belas;
Marte fez os outros homens vizinhos imbeles;
Febo lhe encheu de estilo e tino o peito;
Vénus lhe deu beleza e alegria;
eloquência Mercúrio; mas a Lua
o fez gelado mais do que eu não o queria.
Destas tantas e raras graças cada uma
me inflamou da clara chama minha,
e para gelar restou-lhe aquela.



V


Io assomiglio il mio signor al cielo
meco sovente. Il suo viso è 'l sole;
gli occhi, le stelle; e 'l suon de 'l parole
è l'armonia, che fa 'l signor de Delo.
Le tempeste, le piogge, i tuoni e 'l gelo
son i suoi sdegni, quando irar si suole;
le bonacce e 'l sereno è quando vuole
squarciar de l'ire sue benigno il velo.
La primavera e 'l germogliar de' fiori
è quando ei fa fiorir la mia speranza,
promettendo tenermi in questo stato.
L'orrido verno è poi, quando cangiato
minaccia di mutar pensieri e stanza,
spogliata me de' miei più ricchi onori.



V


Comparo eu o meu senhor ao céu
frequentemente. A sua face é o sol;
os olhos, as estrelas; e o som das palavras
é a harmonia que cria o Senhor de Delos.
As tempestades, chuvas, trovões e gelos
são seus desdéns, quando irar se deve;
as bonanças e o sereno quando quer
rasgar de iras suas o benigno velo.
A primavera e o brotar das flores
é quando faz florir a minha esperança,
prometendo manter-me neste estado.
O hórrido inverno é logo, quando mudado
ameaça de mudar de pensar e de quarto,
despojada eu das minhas mais ricas honras.


Senhor de Delos - O deus Apolo que aí era venerado e tinha um importante santuário


VII


Chi vuol conoscer, donne, il mio signore,
miri un signor di vago e dolce aspetto,
giovane d'anni e vecchio d'intelletto,
imagin de la gloria e del valore:
di pelo biondo, e di vivo colore,
di persona alta e spazioso petto,
e finalmente in ogni opra perfetto,
fuor ch'un poco (oimè lassa!) empio in amore.
E chi vuol poi conoscer me, rimìri
una donna in effetti ed in sembiante
imagin de la morte e de' martìri,
un albergo di fè salda e costante,
una, che, perché pianga, arda e sospiri,
non fa pietoso il suo crudel amante.


VII

Quem conhecer queira, ó mulheres, o meu senhor,
mire um senhor de vago e doce aspecto,
jovem de anos e velho de intelecto,
imagem da glória e do valor:
de pelo louro e de viva cor,
alto de pessoa e de espaçoso peito,
efinalmente em todas as obras perfeito,
menos que um pouco (ai de mim!) ímpio no amor.
E quem quiser depois me conhecer, veja
uma mulher nas vestes e no semblante
imagem da morte e dos martírios,
um albergue de fe férrea e constante,
uma que, porque chore, arda e suspire,
não faz piedoso o seu cruel amante.



X


Alto colle, gradito e graciozo,
novo Parnaso mio, novo Elicona,
ove poggiando attendo la corona,
de le fatiche mie dolce riposo;
quanto sei qui tra noi chiaro e famoso,
e quanto sei a Rodano e a Garona,
a dir in rime alto dísio mi sprona,
ma l'opra è tal, che cominciar non oso.
Anzi quanto averrà che mai ne canti,
fia pura ombra del ver, perciò che 'l vero
va di lungo il mio stil e l'altrui innanti.
Le tue frondi e 'l tuo giogo verdi e 'ntero
conservi 'l cielo, albergo degli amanti
colle gentil, dignissimo d'impero.



X


Alta colina, aprazível e graciosa,
novo Parnaso meu, novo Hélicon,
onde repousando espero a coroa,
das fadigas minhas doce repouso;
quanto és aqui entre nós claro e famoso,
e quanto o és no Ródano e na Garona,
dizê-lo em rimas alto desejo me espicaça,
mas a obra é tal, que começar não ouso.
Antes, quanto será que nunca o cante,
seja pura sombra do verso, de molde que o vero
vá mais longe que o meu estilo o o outro antes.
Os teus ornatos e o teu jugo verde e inteiro
conservo o céu, albergo dos amantes
colina gentil, digníssima de império.


colina - vide nota ao soneto III
Ródano e Garona - referência à presença de Collantino di Colalto, durante o ano de 1549, na campanha pela reconquista de Boulogne-sur-mer e no casamento de Orazio Farnese com Diana, filha ilegítima de Henrique II de França


XI


Arbor felice, aventuroso e chiaro,
onde i duo rami sono al mondo nati,
che vanno in alto, e son già tanto alzati,
quanto raro altri rami unqua s'alzaâro;
rami che vanno ai grandi Scipi a paro,
o s'altri fûr di lor mai più lodati
(ben lo sanno i miei occhi fortunati,
che per bearsi in uno d'essi mirâro),
a te, tronco, a voi, rami, sempre il cielo
piova rugiada, sì che non v'offenda
per avversa stagion caldo, né gelo.
La chioma vostra e l'ombra s'apra e stenda
verde per tutto; e d'onorato zelo
odor, fior, frutti a tutt'Italia renda.


XI

Árvore feliz, aventurosa e clara,
onde os dois ramos são para o mundo nados,
que alto vão, e são tanto já alçados,
quão raro outros ramos já se alçaram;
ramos que vão dos grandes Scipiões a par,
ou se outros foram do que eles mais louvados
(bem o sabem os meus olhos afortunados,
que por delícia num desses se miraram),
a ti, tronco, a vós, ramos, sempre o céu
chova orvalho, de modo que vos não ofenda
por adversa estação quente, nem gelo.
Que a copa vossa e a sombra se abra e estenda
verde no todo, e de honrado zelo
odor, flor, frutos a tod'Itália traga.


dois ramos - referência aos dois ramos da árvore genealógica de Collantino di Collalto: Collatino e Vinciguerra
grandes Scipiões - Referência a Públio Cornélio Scipião e ao seu filho adoptivo Públio Cornélio emiliano, famosos por feitos de letras e armas

XII


Deh, perché così tardo gli occhi apersi
nel divin, non umano amato volto,
ond'io scorgo, mirando, impresso e scolto
un mar d'alti miracoli e diversi?
Non avrei, lassa, gli occhi indarno aspersi
d'inutil pianto in questo viver stolto,
né l'ama avria, com'ha, poco né molto
di fortuna o d'amore onde dolersi.
E sarei forse de sì chiaro grido,
che, mercé de lo stil, ch'indi m'è dato,
risoneria fors'Adria oggi, e 'l suo lido.
Ond'io sol piango il mio tempo passato,
mirando altrove; e forse anche mi fido
di far in parte il foco mio lodato.


XII


Deus, porque tão tarde os olhos abri
para o divino, não humano amado vulto,
onde percebo, mirando, impresso e esculpido
um mar d'altos milagres e diversos?
Não teria, coitada, os olhos debalde húmidos
d'inútil pranto neste viver estulto,
nem a alma teria, como tem, pouco nem muito
de fortuna ou de amor de que doer-se.
E serei talvez por tão claro grito,
que, mercê do estilo, que ora me é dado,
a risota talvez da Adria de hoje, e do seu lido.
Ond'eu só choro o meu tempo passado,
olhando alhures; e talvez também me fie
em afastar o fogo meu louvado.


Adria e do seu lido - Veneza e suas possessões marítimas no Adriático

(continua)

domingo, 31 de julho de 2011

A poesia de Gaspara Stampa II

(continuação)


CXLIV

Ricorro a voi, luci beate e dive,
a voi che sète le mie fide scorte,
da poi che'l cielo, Amor, fortuna e sorte
sono ai soccorsi miei sì tardi e schive.
Se per me in voi si spera e 'n voi si vive,
come avien che per voi pur si comporte
a star lunge da me quest'ore corte,
che 'l mio ben la pietà vostra prescrive?
Deh non state oggimai da me più lunge!
Fate che questo breve spazio sia
concesso a me dávervi sempre presso;
ché l'ardente disio tanto mi punge,
che certo finirá la vita mia,
se non m'è 'l vagheggiarvi ognor concesso.

CXLIV

Recorro a vós, luzes beatas e divas,
a vós que soides as minhas fidas reservas
,
desde que céu, Amor, fortuna e sorte
são em meu socorro tão tardas e esquivas.
Se para mim em vós se espera e em vós se vive,
como pode suceder que vós suporteis
estar longe de mim durante estas horas curtas,
que o meu bem a piedade vossa prescreve?
Deus, não estaide nunca mais de mim longe!
Fazei com que este breve espaço seja
concedido a mim de ter-vos sempre junto;
que o ardende desejo a tanto me obriga,
que certo finirá a vida minha,
se não me for o contemplar-vos sempre concedido.


(continua)

sábado, 30 de julho de 2011

A poesia de Gaspara Stampa I


Gaspara Stampa (Pádua, 1523 - Veneza, 1554) foi uma poetisa italiana. A sua poesia, fortemente marcada pelo seu tempo, apresenta uma clara influência petrarquista. Foi uma das primeiras vozes femininas da poesia profana.
Procurando na PORBASE ,não encontrei nenhuma edição das Rime e muito menos traduções, pelo que julgo ser a presente uma primeira tradução para língua portuguesa. Sendo uma das vozes femininas que mais me agradam é provável que a esta se sucedam outras...


I

Voi ch'ascoltate in queste meste rime,
in questi mesti, in questi oscuri accenti
il suon degli amorosi miei lamenti
e delle pene mie tra l'altre prime,
ove fia chi valor apprezzi e stime,
gloria, non che perdon, de' miei lamenti
spero trovar fra le ben nate genti,
poi che la lor cagione è si sublime.
E spero ancor che debba dir qualcuna:
-- Felicissima lei, da che sostenne
per sì chiara cagion danno sì chiaro!
Deh, perché tant'amor, tanta fortuna
per sì nobil signor a me non venne,
ch'anch'io n'andrei con tanta donna a paro?



I

Vós que escutais nestas suaves rimas,
nestes suaves, nestes obscuros acentos,
o som dos amorosos meus lamentos
e das penas minhas entr'as outras primas,
onde haja quem valor aprecie e estime,
glória, não o perdão, dos meus lamentos
espero achar entre as bem nascidas gentes,
pois que a sua causa é tão sublime.
E espero ainda que deva dizer alguma:
-- Felicíssima sedes, pois que suportas
por tão clara causa dano tão claro!
Deus, porquê tant'amor, tanta fortuna,
por tão nobre senhor a mim não vem,
que também eu não iria com tanta mulher a par?

(continua)