(continuação)
XIII
Chi darà penne d'aquila o colomba
al mio stil basso, sì ch'ei prenda il volo
da l'Indo al Mauro e d'uno in altro polo,
ove arrivar non può saetta o fromba?
e, quai chiara e risonante tromba,
la bellezza, il valor, al mondo solo,
di quel bel viso, ch'io sospiro e còlo,
descriva sì, che l'opra non soccomba?
Ma, poi che ciò m'è tolto, ed io poggiare
per me stessa non posso ove conviene,
sì che l'opra e lo stil vadan di pare,
l'udranno sol queste felici arene,
questo d'Adria beato e chiaro mare,
porto de' miei diletti e di mie pene.
XIII
Quem dará penas d'águia ou de pomba
ao meu estilo baixo, assim que ele prenda o voo
do Indo ao Mauro e de um ao outro polo,
onde chegar não pode flecha ou funda?
e. qual clara e ressonante trompa,
a beleza, o valor, ao mundo só,
daquele belo vulto, qu'eu suspiro e adoro,
descreva assim, que a obra não sucumba?
Mas, já que tal me é tolhido, e eu apoiar
por mim mesma não posso onde convém,
assim que obra e estilo vão a par,
a ouvirão apenas estas felizes arenas,
este de Adria beato e claro mar,
porto dos meus dilectos e das minhas penas.
XIV
Che meraviglia fu, s'al primo assalto,
giovane e sola, io restai presa al varco,
stando Amor quindi con gli strali e l'arco,
e ferendo per mezzo, or basso or alto,
indi 'l signor, che 'n rime orno e essalto
quanto più posso, e 'l mio dir resta parco,
con due occhi, anzi strai, che spesso incarco
han fatto al sole, e con un cor di smalto?
ed essendo da lato anche imboscate,
sì ch'a modo nessun fess'io difesa,
alta virtute e chiara nobiltate?
Da tanti e ta' nemici restai presa;
né mi duol, pur che l'alma mia beltate,
or che m'ha vinta, non faccia altra impresa.
XIV
Que maravilha foi, se no primeiro assalto,
jovem e só, fiquei pelo caminho,
estando Amor por isso com as setas e o arco,
e ferindo pelo meio. ora baixo ora alto,
de onde o senhor, que em rimas orno e exalto
quanto mais posso, e o meu dizer resta parco,
com dois olhos, ou ainda mais, que frequente ofensa
ao sol fizeram, e com um coração valente?
e sendo de lado também emboscada,
assim que de nenhum modo foss'eu defesa,
alta virtude e clara nobreza?
De tantos e tantos inimigos fiquei cativa;
nem me doí, desde qua a alma minha beleza,
ora que me venceu, não cometa outra empresa.
XV
Voi, che cercando ornar d'alloro il crine
per via di stile, al bel monte poggiate
con quante sí fe' mai salde pedate,
anime sagge, dotte e pellegrine,
in questo mar, che non ha fondo o fine,
le larghe vele innanzi a me spiegate,
e gli onori e le grazie ad un cantate
del mio signor sì rare e sì divine:
perché soggetto sì sublime e solo,
senz'altra aíta di felice ingegno,
può per se stesso al cielo alzarci a volo.
Io per me sola a dimostrar ne vegno
quanto l'amo ad ognum, quanto lo còlo;
ma de le lode sue non giungo al segno.
XV
Vós, que buscando ornar de louro a cabeça
devido ao estilo, ao belo monde apoiais
com quantos deis nunca firmes passos,
almas sábias, doutas e peregrinas,
neste mar, que não tem fundo ou fim,
as largas velas diante de mim desfraldadas,
e as honras e as as graças a uma voz cantadas
do meu senhor tão altas e tão divinas:
porque sujeito tão sublime e só,
sem outra ajuda de feliz engenho,
pode por si só ao ceu alçar-se em voo.
Eu por mim só demonstrar venho
quanto o amo a cada um, quanto o adoro;
mas os louvores seus não atinjo.
(continua)
sábado, 13 de agosto de 2011
Um poema de Pietro Bembo
retrato do Cardeal Pietro Bembo por Ticiano
Pietro Bembo (Veneza, 20 de Maio de 1470 – Roma, 18 de Janeiro de 1547) foi um gramático, escritor, humanista, historiador e cardeal veneziano. Foi o primeiro a estabelecer as regras da língua italiana de modo seguro e coerente, com base nas práticas dos maiores escritores toscanos do século XIV. Contribuiu decisivamente para a difusão na Itália e no exterior do modelo poético petrarquista . As suas idéias foram também fundamentais para a formação musical do estilo madrigal do século XVI.
Alma cortese che dal Mondo errante
Partendo nella tua più verde etade,
Hai me lasciato eternamente in doglia,
Dalle sempre beate alme contrade,
Ov'or dimori cara a quell'Amante,
Che più temer non puol, che ti si toglia;
Risguarda in terra, e mira, u'la tua spoglia
Chiude un bel sasso; e me, che 'l marmo asciutto
Vedrai bagnar, te richiamando, ascolta.
Però che chiusa, e tolta
L'alta pura dolcezza, e rotto in tutto
Fù 'l più fido sostegno al viver mio,
frate, quel dì, che te n'andasti a volo.
Da indi in quà né lieto, né securo
Non ebbi un giorno mai, né d'aver curo;
Anzi mi pento esser rimasto solo,
Che son venuto, senza di te, in obblio
Di me medesmo, e per te solo er'io
Caro a me stesso. Or teco ogni mi gioia
È spenta, e non so già, perch'io non muoia.
Alma cortês que do Mundo errante
Partindo na tua mais verde idade,
Me deixaste eternamente em dores,
Das sempre beatas almas jogadas,
Ond'ora permaneces cara àquel'Amante,
Que mais temer não pode, que te se tolha;
Protege em terra, e olha, onde os teus despojos
Encerra uma bela pedra; e eu, que o mármore enxuto
Verás banhar, chamando-te, escuta.
Mas já que fechada, e retirada foi
A alta pura beleza, e destroçado
Foi o mais fiel apoio ao viver meu,
irmão, aquele dia, que partiste em voo,
Desde então nem feliz, nem seguro
Tive um dia mais, nem de ter curo;
Antes me arrependo de ter ficado só,
Que cheguei, sem ti, ao olvido
De mim mesmo, e para ti só era eu
Caro a mim mesmo. Ora contigo cada minha alegria
Feneceu, e não sei já, porque não morra.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS: DA CONDIÇÃO HUMANA
Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.
in José Carlos Ary dos Santos, A liturgia do sangue
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.
in José Carlos Ary dos Santos, A liturgia do sangue
A poesia de Gaspara Stampa IV
(continuação)
VIII
Se, così come sono abietta e vile
donna, posso portar sì alto foco,
perché non debbo aver almeno un poco
di ritraggerlo al mondo e vena e stile?
S'amor con novo, insolito focile,
ov'io non potea gir, m'alzò a tal loco,
perché non puó non con usato gioco
far la pena e la penna in me simile?
E, se non può per forza di natura,
puollo almen per miracolo, che spesso
vince, trapassa e rompe ogni misura.
Come ciò sia non posso dir espresso;
io provo ben che per mia gran ventura
mi sento il cor di novo stile impresso.
VIII
Se, assim como sou abjecta e vil
mulher, posso levar tão alto o fogo,
porque não devo ter somente um pouco
de desviá-lo do mundo em veia e estilo?
Se amor com nova, insólita alcova,
ond'eu não podia jazer, m'elevou a tal ponto,
porque não pode não com usado jogo
fazer pena e penas em mim iguais?
E, se não pode por força de natura,
pode-o somente por milagre, que frequente
vence, ultrapassa e quebra toda a medida.
Como tal seja não posso dizer expresso;
eu sinto bem que por minha grã ventura
sinto o coração de novo estilo impresso.
IX
S'avien ch'un giorno Amor a me mi renda,
e mi ritolga a questo empio signore;
di che paventa, e non vorrebbe, il core,
tal gioia del penar suo par che prenda;
voi chiamerete invan la mia stupenda
fede, e l'immenso e smisurato amore,
di vostra crudeltà, di vostro errore
tardi pentito, ove non è chi intenda.
Ed io, cantando la mia libertade,
da così duri lacci e crudi sciolta,
passerò lieta a la futura etade.
E, se giusto pregar in ciel s'ascolta,
vedrò forse anco in man di crudeltade
la vita vostra a mia vendetta involta.
IX
Se sucede que um dia Amor a mim me renda,
e me retira a este ímpio senhor;
dia que receia, e não o queria, o coração,
que tal gozo do penar seu igual receba;
Chamareis em vão a minha estupenda
fé, e o imenso e desmesurado amor,
da vossa crueldade, do vosso erro
tarde arrependido, quando ninguém ouvirá.
E eu, cantando a minha liberdade,
de tão crus e duros laços liberta,
passarei feliz à futura idade.
E, se o justo pregar no céu se escuta,
verei talvez ainda em jeito de crueldade
a vida vossa na minha vingança envolta.
(continua)
VIII
Se, così come sono abietta e vile
donna, posso portar sì alto foco,
perché non debbo aver almeno un poco
di ritraggerlo al mondo e vena e stile?
S'amor con novo, insolito focile,
ov'io non potea gir, m'alzò a tal loco,
perché non puó non con usato gioco
far la pena e la penna in me simile?
E, se non può per forza di natura,
puollo almen per miracolo, che spesso
vince, trapassa e rompe ogni misura.
Come ciò sia non posso dir espresso;
io provo ben che per mia gran ventura
mi sento il cor di novo stile impresso.
VIII
Se, assim como sou abjecta e vil
mulher, posso levar tão alto o fogo,
porque não devo ter somente um pouco
de desviá-lo do mundo em veia e estilo?
Se amor com nova, insólita alcova,
ond'eu não podia jazer, m'elevou a tal ponto,
porque não pode não com usado jogo
fazer pena e penas em mim iguais?
E, se não pode por força de natura,
pode-o somente por milagre, que frequente
vence, ultrapassa e quebra toda a medida.
Como tal seja não posso dizer expresso;
eu sinto bem que por minha grã ventura
sinto o coração de novo estilo impresso.
IX
S'avien ch'un giorno Amor a me mi renda,
e mi ritolga a questo empio signore;
di che paventa, e non vorrebbe, il core,
tal gioia del penar suo par che prenda;
voi chiamerete invan la mia stupenda
fede, e l'immenso e smisurato amore,
di vostra crudeltà, di vostro errore
tardi pentito, ove non è chi intenda.
Ed io, cantando la mia libertade,
da così duri lacci e crudi sciolta,
passerò lieta a la futura etade.
E, se giusto pregar in ciel s'ascolta,
vedrò forse anco in man di crudeltade
la vita vostra a mia vendetta involta.
IX
Se sucede que um dia Amor a mim me renda,
e me retira a este ímpio senhor;
dia que receia, e não o queria, o coração,
que tal gozo do penar seu igual receba;
Chamareis em vão a minha estupenda
fé, e o imenso e desmesurado amor,
da vossa crueldade, do vosso erro
tarde arrependido, quando ninguém ouvirá.
E eu, cantando a minha liberdade,
de tão crus e duros laços liberta,
passarei feliz à futura idade.
E, se o justo pregar no céu se escuta,
verei talvez ainda em jeito de crueldade
a vida vossa na minha vingança envolta.
(continua)
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Não só Vinho, mas nele o Olvido
Não só vinho, mas nele o olvido, deito
Na taça: serei ledo, porque a dita
É ignara. Quem, lembrando
...Ou prevendo, sorrira?
Dos brutos, não a vida, senão a alma,
Consigamos, pensando; recolhidos
No impalpável destino
Que não 'spera nem lembra.
Com mão mortal elevo à mortal boca
Em frágil taça o passageiro vinho,
Baços os olhos feitos
Para deixar de ver.
Ricardo Reis, in "Odes"
3 Poemas de Ruy Belo
MORS SEMPER PRAE OCULIS
Narro-me letra por letra para ti
e sou a breve palavra que tu deixas
como uma esteira branca
no céu azul do tempo
subo tijolo a tijolo até às tuas mãos
e sou dos edifícios da cidade
um dos que hão-de ruir amanhã
Tombaram-nos primeiros os avós
e chega já a vez dos nossos pais
Quando faltar um choupo
no caminho da infância que vai dar ao rio
receberemos no rosto a morte
com a surpresa do primeiro homem
Eu fui um dia um nome escrito numa pedra
onde as mulheres da minha aldeia
batiam a roupa que nos cobre no tempo
E depois já não soube mais nada
mas a primavera passou rente a mim:
a morte fora continuava
As duas mortes
A noite desce ainda somos jovens
Morrer é deixar isto a este lado
de nada serve já
o diálogo com vozes silêncios
na praia a nosso lado
Amanhã molharemos
o corpo noutro dia e beberemos
na bica costumada
onde poderá subitamente correr
uma canção conhecida
Cada dia mais morte que morte
haverá para nós no fim dos dias?
in Ruy Belo, Aquele grande rio Eufrates
Nós os vencidos do catolicismo
Nós os vencidos do Catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido miticismo
nos acordes dos carmina burana
Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos
Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana
Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos o jogamos
«Meu deus meu deus porque me abandonaste?»
in Ruy Belo, Homem de Palavras[s]
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Luís Vaz de Camões: AMOR É FOGO QUE ARDE SEM SE VER
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
in Luís Vaz de Camões, Lírica
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