quinta-feira, 21 de julho de 2011

Um poema de Eugénio de Andrade: «Essa mulher..."

ESSA MULHER...

...
Essa mulher, a doce melancolia
dos seus ombros, canta.
O rumor
da sua voz entra-me pelo sono,
é muito antigo.
Traz o cheiro acidulado
da minha infância chapinhada ao sol.
O corpo leve quase de vidro.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Alguns poemas de Guido Gozzano


Guido Gozzano (Turim, 19 de Dezembro de 1883 - Turim, 9 de Agosto de 1916) foi um poeta italiano crepuscular.
Gozzano, muito embora seja autor de uma importante produção poética, permanece um desconhecido para o grande público português. Não tendo nunca sido objecto de edições e traduções para a língua portuguesa, apenas o conhecem por cá os que se interessam pelas letras italianas. O presente conjunto de poesias traduzidas, com todas as limitações que lhes poderem vir a ser reconhecidas, fazem parte de um projecto pessoal de tradução integral da poesia de Guido Gozzano em que me encontro empenhado, que se encontra ainda em fase inicial, e que gostaria de um dia vir a publicar por pensar ser da mais elementar justiça que a sua obra seja conhecida e reconhecida.
Agradeço igualmente todas as críticas e sugestões que queiram ter a bondade de deixar uma vez que este é um caso de "work in progress". Se quiserem dar paulada julgo ter as costas bastante largas para as receber, porém, não sendo o masoquismo parte integrante da minha índole, escuso de vos agradecer.
Por uma questão de respeito pelo texto original todos os textos traduzidos serão precedidos do texto na língua original.



La medicina

Alla signora C. R. dalla bella voce

Non so che triste affanno mi consumi:
sono malato e nei miei dì peggiori...
Tra i balaustri il mar scintilla fuori
la zona dei palmeti e degli agrumi.

Ah! Se voi foste qui, tra questi fiori,
amica! O bella voce tra i profumi!
Se recaste con voi tutti i volumi
di tutti i nostri dolci ingannatori!

Mi direste il Congedo, oppur la Morte
del cervo
, oppure la Sementa... E queste
bellezze, più che l'aria e più che il sole,

mi farebbero ancora sano e forte!
E guarirei: Voi mi risanereste
con la grande virtù delle parole!


O remédio

À senhora C. R. da bela voz

Não sei que triste tormento me consuma:
estou doente e nos meus dias piores...
Entre os balaústres o mar cintila fora
a zona das palmas e dos citrinos.

Ah! Fosses vós aqui, entre estas flores,
amiga! Ò bela voz entre os perfumes!
Se trouxeras com vós todos os volumes
de todos os nossos doces enganadores!

Me dirieis o "Congedo", ou a "Morte
del cervo"
, ou a "Sementa"... E estas
belezas, mais que o ar e mais que o sol,

me fariam ainda são e forte!
E curarei: Vós me curaríeis
com a grande virtude das palavras!


Il buon compagno

Non fu l'Amore, no. Furono i sensi
curiosi di noi, nati pel culto
del sogno... E l'atto rapido, inconsulto
ci parve fonte di misteri immensi.

Ma poi che nel tuo bacio ultimo spensi
l'ultimo bacio e l'ultimo sussulto,
non udii che quell'arido singulto
di te, perduta nei capelli densi.

E fu vano accostare i nostri cuori
già riarsi dal sogno e dal pensiero;
Amor non lega troppo eguali tempre.

Scenda l'oblio; immuni da languori
si prosegua più forti pel sentiero,
buoni compagni ed alleati: sempre.

O bom companheiro

Não foi o Amor, não. Foram os sentidos
curiosos nossos, nascidos do culto
do sonho... E o acto rápido, inconsulto
apareceu-nos fonte de mistérios imensos.

Mas já que no teu beijo apaguei
o último beijo e o último sobressalto,
não ouvi que aquele árido soluço
de ti, perdida nos cabelos densos.

E foi vão acercar os nossos corações
ardidos já de sonho e do pensar;
Que amor não liga demasiado iguais temperas.

Caia o olvido; imune aos langores
se prossiga mais fortes pelo caminho,
bons companheiros e aleados: sempre.


Salvezza

Vivere cinque ore?
Vivere cinque età?...
Benedetto il sopore
che m'addormenterà...

Ho goduto il risveglio
dell'anima leggiera:
meglio dormire, meglio
prima della mia sera.

Poi che non ha ritorno
il riso mattutino.
La bellezza del giorno
è tutta nel mattino.


Salvação

Viver cinco horas?
Viver cinco idades?...
Bendito o torpor
que me adormecerá...

Gozei o acordar
da alma suave:
melhor é dormir, melhor
antes do meu ocaso.

Pois que é sem retorno
o riso matutino.
A beleza do dia
está toda na manhã.


Congedo

Anche te, cara, che non salutai
di qui saluto, ultima. Coraggio!
Viaggio per fuggire altro viaggio.
In alto, in alto i cuori. E tu ben sai.

In alto, in alto i cuori. I marinai
cantano leni, ride l'equipaggio;
l'aroma dell'Atlantico selvaggio
mi guarirà, mi guarirà, vedrai.

Di qui, fra cielo e mare, o Benedetta,
io ti chiedo perdono nel tuo nome
se non cercai parole alla tua pena,

se il collo liberai da quella stretta
spezzando il cerchio della braccia, come
si spezza a viva forza una catena.


Despedida

A ti também, cara, que não saudei
daqui saudo, por última. Coragem!
Viajo para fugir a outra viagem.
Ao alto, corações ao alto. E tu bem sabes.

Ao alto, corações ao alto. Os marinheiros
cantam com alento, ri a equipagem;
o aroma do Atlântico selvagem
curar-me-há, curar-me-há, verás.

Daqui, entre céu e mar, ó Bendita,
eu te peço perdão em teu nome
se palavras não busquei a tuas penas,

se o pescoço libertei daquele aperto
quebrando o círculo dos braços, como
se quebra à viva força uma cadeia.


La più bella

I.

Ma bella più di tutte l'Isola Non-Trovata:
quella che il Re di Spagna s'ebbe da suo cugino
il Re di Portogallo con firma sugellata
e bulla del Pontefice in gotico latino.

L'Infante fece vela pel regno favoloso,
vide le fortunate: Iunonia, Gorgo, Hera
e il Mare di Sargasso e il Mare Tenebroso
quell'isola cercando... Ma l'isola non c'era.

Invano le galee panciute a vele tonde,
le caravelle invano armarono la prora:
con pace del Pontefice l'isola si nasconde,
e Portogallo e Spagna la cercano tuttora.

II.

L'isola esiste. Appare talora di lontano
tra Teneriffe e Palma, soffusa di mistero:
"...l'Isola Non-Trovata!" Il buon Canarïano
dal Picco alto di Teyde l'addita al forestiero.

La segnano le carte antiche dei corsari.
...Hifola da - trovarfi? ...Hifola pellegrina?...
È l'isola fatata che scivola sui mari;
talora i naviganti la vedono vicina...

Radono con le prore quella beata riva:
tra fiori mai veduti svettano palme somme,
odora la divina foresta spessa e viva,
lacrima il cardamomo, trasudano le gomme...

S'annuncia col profumo, come una cortigiana,
l'Isola Non-Trovata... Ma, se il pilota avanza,
rapida si dilegua come parvenza vana,
si tinge dell'azzurro color di lontananza...


A mais bela

I.

Mais bela que todas a Ilha Não-Achada:
aquela que o Rei d'Espanha teve de seu primo
o Rei de Portugal com assinatura selada
e bula do Pontífice em gótico latim.

O Infante vogou pelo reino fabuloso,
viu as afortunadas: Junónia, Gorgo, Hera
e o Mar dos Sargaços e o Mar Tenebroso
aquela ilha buscando... Mas a ilha não existia.

Em vão as galés bojudas de velas tondas,
as caravelas em vão armaram as proas:
com paz do Pontífice a ilha se oculta,
e Portugal e Espanha a buscam ainda agora.

II.

A ilha existe. Aparece por vezes na distância
entre Tenerife e Palma, encoberta de mistério:
"...A Ilha Não-Achada!" O bom Canário
do Pico alto de Teyde a aponta ao forasteiro.

Marcam-na as cartas antigas dos corsários.
...Ilha por-achar? ... Ilha peregrina?...
Éa ilha fadada que desliza pelos mares;
por vezes os navegantes a vêem vizinha...

Razam com as proas aquela beata ria:
entre flores nunca vistas assomam palmas sumas,
odora a divina floresta espessa e viva,
chora o cardamomo, transudam as borrachas...

Anuncia-se com o perfume, como uma cortesã,
a Ilha Não-Achada... Mas se o piloto avança,
rápida se afasta como aparência vã,
se tinge da azul cor da distância...


Ad un'ignota

Tutto ignoro di te: nome, cognome,
l'occhio, il sorriso, la parola, il gesto;
e sapere non voglio, e non ho chiesto
il colore nemmen delle tue chiome.

Ma so che vivi nel silenzio; come
care ti sono le mie rime: questo
ti fa sorella nel mio sogno mesto,
o amica senza volto e senza nome.

Fuori del sogno fatto di rimpianto
forse non mai, non mai c'incontreremo,
forse non ti vedrò, non mi vedrai.

Ma più di quella che ci siede accanto
cara è l'amica che non mai vedremo;
supremo è il bene che non giunge mai!


A uma desconhecida

Tudo de ti ignoro: nome, apelido,
o olho, o sorriso, a fala, o gesto;
e saber não quero e não demando
a cor sequer da tua cabeleira.

Mas sei que vives no silêncio; como
caras te são as minhas rimas: isto
te faz irmã no meu sonho triste,
ó amiga sem vulto e sem nome.

Fora do sonho feito de nostalgia
talvez não mais, não mais nos acharemos,
talvez não te verei, não me verás.

Mas mais que aquela que a nós se senta junto
cara é a amiga que nunca mais veremos;
supremo é o bem que não se alcança mais!

«Il sogno cattivo» de Guido Gozzano

Guido Gozzano (Turim, 19 de Dezembro de 1883 - Turim, 9 de Agosto de 1916) foi um poeta italiano crepuscular.
Não conhecendo nenhuma tradução para português, a presente é da minha lavra.



Il sogno cattivo


Se guardo questo pettine sottile
di tartaruga e d’oro, che affigura –
opera egregia di cesellatura –
un germoglio di vischio in novo stile,

risogno un sogno atroce. Dal monile
divampa quella gran capellatura
vostra, fiammante nella massa oscura.
E pur non vedo il volto giovenile.

Solo vedo che il pettine produce
sempre capelli biondo-bruni e scorgo
un cielo fatto delle loro trame:

un cielo senza vento e senza luce!
E poi un mare… e poi cado in un gorgo
tutto di bande di color di rame.


O Sonho mau

Se olho para este pente fino
de tartaruga e d’oiro, que parece –
obra egrégia de cinzeladura –
um rebento de visco em novo estilo,

Ressonho um sonho atroz. Da jóia
alastra aquela grande cabeleira
vossa, flamejante na massa obscura.
E contudo não vejo o vulto juvenil.

Só vejo que o pente produz
sempre cabelos loiro escuro e diviso
um céu feito só das suas tramas:

Um céu sem vento e sem luz!
Depois um mar... e caio num vórtice
todo de faixas de cor de cobre.

A António Pereira, Senhor de Basto, quando se partiu para a Corte co’a casa toda


Como eu vi correr pardaus
Por Cabeceiras de Basto,
Crecerem cercas e o gasto,
Vi, por caminhos tão maus,
Tal trilha e tamanho rasto,
Logo os meus olhos ergui
À casa antiga e à torre,
E disse comigo assi:
Se Deus nos não val aqui,
Perigoso imigo corre.
Não me temo de Castela,
Donde inda guerra não soa,
Mas temo-me de Lisboa
Que, ao cheiro desta canela,
O Reino nos despovoa.
E que algum embique e caia
(Afora vá mau agouro!)
Falar por aquela praia
Da grandeza de Cambaia,
Narsinga das torres d’ouro.
Ouves, Viriato, o estrago,
Que vai dos teus costumes?
Os leitos, mesas e os lumes,
Todo cheira: eu óleos trago;
Vem outros, trazem perfumes,
E ao bom trajo dos pastores
Com que saíste à peleja
Dos Romãos tão vencedores,
São mudados os louvores:
Não há quem t’haja enveja.
Entrou, há dias, peçonha
Clara pelos nossos portos,
Sem que remédio se ponha:
Uns dormentes, outros mortos,
Alguém polas ruas sonha.
Fez no começo a pobreza
Vencer os ventos e o mar,
Vencer quase a natureza:
Medo hei de novo à riqueza
Que nos venha a cativar.
(…) Direis, e eu não vo-lo nego,
Mas quereis também que diga?
Este mundo é armado em briga,
Não busqueis nele assossego,
Nem nûa alta ermida antiga.
Todavia há diferenças
Antre o de cá e o de lá:
Cá, nas mais das desavenças,
Éreis mestres das sentenças;
Para ond’is outrem as dá.
Tereis em troca manjares,
Composições delicadas,
ûas por outras grosadas,
Pelos tempestuosos mares
A grão perigo buscadas.
Convites de quem convida!
Amostram-vos suas tendas:
Quanta cousa i é perdida!
Ceas imigas da vida,
Imigas más das fazendas!
Disto o cheiro, disto a cor,
Que preço não tem igual:
Milagres de Portugal!
— Cousas de tanto sabor
para saberem tão mal!
Ao reino cumpre em todo ele
er a quem seu mal doa,
Não passar tudo a Lisboa,
Que é muito o peso, e com ele,
Mete o barco n’água a proa.

Vereis barcos ir à vela
Uns que vão, outros que vem,
Como que se desavem
C’ûa viração singela.
Tanta força a arte tem.
Os marinheiros vadios,
Que vilmente a vida apreçam,
Polas cordas dos navios
Volteam como bugios
Inda que vos al praceçam.
Não hei por perda esta leve,
Que sejam palavras tudo.
— Mas ao coração acudo!
Senão, dizei: quem se atreve
À dor esperá-la mudo?
São elas, porém, já muitas:
Fê-las ir crecendo a mágoa!
Lembro-vos as vossas fruitas,
Lembro-vos as vossas truitas,
Que andam já por vossas n’água.


Sá de Miranda

terça-feira, 19 de julho de 2011

2 poemas de Eugenio Montale


Eugenio Montale (Génova, 12 de Outubro de 1896 - Milão, 12 de Setembro de 1981) foi um poeta, jornalista e crítico musical italiano, tendo sido distinguido com o prémio Nobel da Literatura em 1975.
Como se tal não bastasse é igualmente um dos preferidos da minha amiga Antonella Ravazini.
A tradução, mais uma vez, e correndo o risco de levar pedradas porque outros melhores do que eu o já fizeram, é minha.



DICONO CHE LA MIA

Dicono che la mia
sia una poesia d’inappartenenza.
Ma s’era tua era di qualcuno:
di te che non sei più forma, ma essenza.
Dicono che la poesia al suo culmine
magnifica il Tutto in fuga,
negano che la testuggine
sia più veloce del fulmine.
Tu sola sapevi che il moto
non è diverso dalla stasi,

che il vuoto è il pieno e il sereno
è la più diffusa delle nubi.
Così meglio intendo il tuo lungo viaggio
imprigionata tra le bende e i gessi.
Eppure non mi dà riposo
sapere che in uno o in due noi siamo una cosa sola.


DIZEM QUE A MINHA

Dizem que a minha
seja uma poesia de não pertença.
Mas se era tua era de alguém:
de ti que não és mais forma, mas essência.

Dizem que a poesia no seu auge
magnifica o Todo em fuga,
negam que a tartaruga
seja mais veloz que o raio.
Tu só sabias que o movimento
não é diverso do êxtase,
que o vazio é o pleno e o sereno
é a mais difusa das nuvens.
Assim melhor entendo a tua longa viagem
aprisionada entre as ligaduras e os gessos.
E contudo não me dá repouso
o saber que em um ou dois somos um só.


L'INSONNIA FU IL MIO MALE


L’insonnia fu il mio male e anche il mio bene.

Poco amato dal sonno mi rifugiai nella veglia,
nel buio che non è poi tanto nero
se libera i fantasmi dalla luce

che li disgrega. Non sono tanto grati
questi
ospiti notturni ma ce n’è uno
che non è sogno e forse è il solo vero.



A INSÓNIA FOI O MEU MAL


A insónia foi o meu mal e também o meu bem.
Pouco amado do sono refugiei-me na vigília,
no escuro que no fim não é tão negro
se liberta os fantasmas da luz
que os quebra. Não são tão gratos
estes hóspedes nocturnos mas um existe
que não é sonho e talvez seja o único verdadeiro.

DISPONIBILIDADE


Vem ver a vida

Passear silenciosamente

Como a ave no ar claro.


Vê-a que desce. Prende-a.

Nas tuas mãos em concha

Fica um instante.


Deixa-a fugir. Outras há

Ruy Cinatti

Perdi meu pai...


Perdi meu pai, minha mãe. Estou só,
ninguém me escuta,
senão quando querem dar
os restos que ninguém quer.

Pobre de pobre, só tenho
os restos que ninguém quer.

Ruy Cinatti